ESPAÇO ABERTO - Ciência, fé e a percepção de Deus
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de janeiro de 2005
Francisca Vergínio Soares 
O teor do artigo ''Tsunami e a bondade de Deus'', escrito pelo professor e filósofo Aguinaldo Pavão no último dia 12, teve várias contestações de pessoas comuns, de pastores, intelectuais, de estudantes, etc, que movidos por um sentimento que diz respeito a cada um, indignaram-se face às suas posições.
Quando o li, não o condenei, mas pensei nos vários autores que ousaram enfrentar o binômio igreja-religião, sem, no entanto, refutarem a idéia ou a existência de Deus. Quando lemos alguns iluministas, como por exemplo, Francis Bacon, inventor do método científico, Einstein, Pasteur, John Locke, Rousseau, entre outros, detectamos neles uma postura de respeito ao aspecto da divindade Deus. O próprio Thomas Hobbes dizia ser um ateu, mas não tinha desprezo ou não convocava as pessoas que criam em Deus a terem atitude de protesto ou de ''acusação à divindade''. É até interessante ver como em o Leviatã, sua obra máxima, ele dialoga com o Antigo Testamento, recurso que servirá de base para sua proposta de um Estado racional.
Também Karl Marx em ''A Questão Judaica'', tem uma postura ética ao dizer que a religião não deve ser um privilégio de poucos, mas um direito que se inscreve na categoria de direitos humanos. Ou seja, Marx afirma que a fé é algo intrínseco a cada um de nós, ela faz parte da singularidade humana que incansavelmente busca explicações que nem sempre a ciência tem resposta. E é aí que entra Deus com seu poder incomensurável que realmente alivia e liberta sensações angustiantes. Observem que não estou falando em religião, mas em Deus como uma referência única de vida.
Afinal, discussão técnica sobre a existência de Deus? Ora, é impossível explicar ou provar a existência de Deus tecnicamente. Aqueles que procuram-no deste modo jamais o encontrarão, porque ''a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção daquilo que não se vê. Sem fé é impossível agradar a Deus, pois é necessário que aquele que se aproxima Dele creia que Ele existe'' (Hebreus 11:1, 6).
Enfim, a meu ver, não há incompatibilidade entre fé na ciência e fé num Deus vivo e bondoso. Como cientista e intelectual, admito que isto não é nenhum empecilho para que eu creia que Ele de fato exista e não é a tsunami que mudará esse sentimento. Essa tragédia mostra o que a natureza é em si mesma: pode ser mãe generosa ou também madrasta desapiedada. Ela é aquilo que o inteiro universo e nós individualmente somos: a coexistência do simbólico com o diabólico, da harmonia com a devastação.
O maremoto não consultou ninguém, nem Bush nem o Papa. As ondas levaram tudo de roldão, indiferentes à morte de milhares e ao sofrimento de milhões de vítimas. Por que tem que ser assim? É um mistério aterrador que só Deus tem conhecimento, no mínimo podemos cultivar nossas mentes piedosas, condição básica para sentirmos nossa humanidade.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Ciência Politica da Uninorte e do ISBL em Londrina


