ESPAÇO ABERTO - Cidadania e passividade
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de junho de 2012
Márcio Florestan Berestinas 
Cidadania, assunto de culto, coisa semelhante à liturgia. E para que lado pende a sua balança: proclamação ou exercício? Os seus livros de contabilidade convivem, à semelhança de outros entes, com passivos e ativos. Deficits e superavits são questões consignadas pela existência. O balanço da alma registra. Não obstante ter influenciado transitoriamente a dinâmica e a estratégia do ''politicamente correto'', ainda pode ter uma longa estrada a percorrer. A neblina ofusca o diagnóstico preciso.
A visão crítica, certamente descortina o império da reflexão e da consciência. Aí estão o seu território e moradia. E, quando reflexão e consciência se projetam no meio social, com força própria, constituem-se em poderoso instrumento de transformação. Não está imune, entretanto, a impugnações ou sacolejos. E nem impermeabilizada da influência deletéria da propaganda, da manipulação, das distorções. Todavia, a mais consistente impugnação parece brotar da própria alma: a ignorância, a alienação, o comodismo ou o fisiologismo. Cada um em seu alojamento próprio.
Os tempos modernos facilitam a desagregação social. Engrenagens lidando com as massas obstam a sua caminhada. Compartimentos com função social, em vez de associarem-se à cultura, informação, educação e lazer, reproduzindo formas superiores de vida e de conhecimento, incursionam por outras veredas. As exceções, apenas, confirmam a regra. Uma sociedade que não esteja minimamente fundada em valores sancionados pela convivência social, tende a fragmentar-se no turbilhão da desagregação. Quais seriam esses valores? A sinceridade, a honestidade, o sucesso escorado no mérito, a hierarquia, o respeito à vida, à tolerância étnica, religiosa e a um modo diferenciado de existência. Agenda minimalista da deontologia. Associando-se a eles o direito à informação e ao de igualdade de oportunidades.
Já a magnanimidade, a generosidade, embora não tenha uma dinâmica operacional intrínseca, pode, porém, espraiar-se pelo entusiasmo de uma qualificada pedagogia cultural. Já a cidadania plena traz, necessariamente, a exigência de vincular as suas ações aos interesses da ''pólis''. A política, quando praticada com respaldo da sensibilidade e da inteligência, impulsionada pela generosidade, libera a sua capacidade de amenizar ou corrigir problemas, recolocando as coisas nos trilhos. Assim deve ser considerada, deslocando o eixo da sua eficiência, de modo a promover o bem comum e a redução das desigualdades, minimizando sobremaneira os contrastes sociais, notoriamente aberrantes.
Esses são espaços a serem preenchidos. Empreendimentos por uma reforma política que aproxime a ''representação'' dos ''representados'' são um dever de todo cidadão consciente! A representação deve vincular-se aos sentimentos, expectativas e anseios da comunidade, e não constituir-se numa carta de autonomia de voo. Compreensível que a cidadania não exista sem empenho.
Debalde, porém, imaginar uma nova ordem como produto de uma energia individual superior, equivalente ao super-homem de Nietzsche. As suas chamas devem se formar nos recintos da sociedade, nos agrupamentos, tais como: igrejas, escolas, sindicatos, associações e organismos de classe, extrapolando para os ambientes sociais. Pilares necessários, sustentando uma formatação cultural, cujo objetivo seria acertar os ponteiros com a civilização e com a História! E, em última instância, com a grandeza da liberdade! Urge trabalhar pela harmonia social, reconhecendo, entretanto, diferenças e conflitos de interesse, como aptos a passar pelo filtro do encaminhamento democrático.
Estamos todos no mesmo barco. Ou consertamos as coisas ou o mundo desanda. Excluídos e marginalizados devem encontrar, em cada um de nós, um soldado da sua emancipação, do seu encontro com a dignidade e com a normalidade da vida. A guerra de todos contra todos pode servir à intuição teórica de Thomas Hobbes, mas não serve à causa da humanidade. Haveremos de buscar outra essência para o homem que não a desse discutível projeto intelectual: ''O homem é um lobo ao homem''.
MÁRCIO FLORESTAN BERESTINAS é formado em Direito pela Universidade Estadual de Londrina e promotor de Justiça no Estado de Mato Grosso
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