Em junho de 1982, enquanto a seleção brasileira de Telê Santana, Sócrates, Zico e Falcão dava show na Copa do Mundo da Espanha, um grupo de 25 estudantes de Comunicação Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL) embarcou em um ônibus com destino ao campus da Universidade Federal de Santa Catarina. Iria, o grupo, participar do Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecom). Chovia e fazia muito frio na outrora Vila Nossa Senhora do Desterro, mas ninguém ligava pra isso. A excitação de conhecer gente de todos os cantos do Brasil gerava o calor que aquecia corpos e mentes.
Ah, tinha também o calor de origem etílica. Os cearenses, por exemplo, tomavam vodca com o encantamento infantil do primeiro picolé e com uma sede de camelo prestes a uma longa jornada no deserto. Mas quem fez sucesso mesmo, na área etílica, foi o pessoal do Espírito Santo. Apresentaram aos demais brasileiros a ''porradinha''. Faz-se assim: coloque em um copo uma dose de cachaça, acrescente outra medida de refrigerante à base de limão, tape a boca do copo com a mão e desfira uma ''porrada'' (pancada) com a outra mão no fundo do copo. O conteúdo do copo efervesce e deve ser tomado, de um só gole, antes que o mesmo retorne ao estado líquido. Três doses deixam o cidadão ''trololó''.
Durante o dia, reuniões, plenárias e articulações. À noite, reuniões, plenárias, conchavos e baladas na boate existente no interior do campus e administrada pelos estudantes. O almoço e a janta eram servidos no Centro de Convivência, local que reuniu a mais brasileira de todas as torcidas para ver o Brasil ser desclassificado na derrota por 3 a 2 diante da Itália de Paolo Rossi. Foi motivo para mais um porre movido a ''porradinha'' e cervejas, muitas cervejas! Teve até uns trotiskstas desfilando pelados em um evento teia de aranha, daqueles bem ao gosto das reitorias que, naqueles tempos, em geral, usavam a beca para camufar a ideologia verde-oliva da ditadura do AI-5, da Lei 477, dos suicidados...
Mas o que esta história tem a ver com a UEL administrada pela reitora legitimamente eleita por professores, estudantes e funcionários? Na condição de graduado em Comunicação Social pela UEL, penso que a repressão posta em prática na UEL pela reitora Lygia Pupatto, pessoa que admiro desde os tempos em que fui seu assessor de imprensa no Sindicato dos Professores de Londrina, tem a ver com certos sinais de indigência de nossa Universidade que, chega aos 32 anos de vida neste 7 de outubro e ainda não tem ah!, que inveja de Florianópolis um Centro de Convivência.
Por falar nisso, se não me falha a memória, na campanha que a elegeu para administrar a UEL, escola que atrai estudantes dos quatro pontos cardeais deste País pela qualidade de seu ensino, Lygia prometeu atender esta eterna reivindicação da comunidade estudantil. E por falar em eleição, sugiro aos membros da comunidade universitária da UEL a leitura do ''Romance Rock - uma história dos anos 80'', Editora Sapo que Chia, onde o jornalista e professor universitário Glauco Cortez, também formado pela UEL, narra sua história e a história da VACA (Vamos Conquistar a Autonomia), chapa que disputou e venceu as eleições para o DCE em 1986.
A VACA, como faz o movimento estudantil atual, invadia salas de aula e as transformava em pontos de venda de cerveja. É, a cerveja já foi demonizada em outros momentos da história da UEL. Mas, até onde sei, aqueles que contrariavam a lei seca tornaram-se bons pais e mães de família, profissionais e empresários competentes ou, então, professores universitários. Além do mais, estudantes e bebidas, desde Sócrates (400 A.C.), sempre caminharam juntos. Então, penso que o problema não é a cerveja, mas, antes e sempre, a falta de um espaço para esta juventude bonita que povoa e enche de vida a UEL extravasar a energia de quem deixou a adolescência na semana passada e, também, recuperar-se do estresse provocado pelas aulas, provas, ônibus lotado, aluguel, namoro rompido...
MAHRIO FRAGOSO é jornalista profissional diplomado pela Universidade Estadual de Londrina

mockup