Acordei nesta sexta-feira ensolarada com a seguinte mensagem da minha mãe: "Olha só o que aconteceu no Ghada". Ghada, para quem não sabe, é um restaurante libanês tradicional de Londrina, eleito nosso favorito aqui de casa. O vídeo que acompanha a mensagem é chocante: um funcionário abre a porta do estabelecimento e joga água em direção a um morador de rua sentado na calçada. Se essa descrição já é suficientemente revoltante, fica ainda pior quando observamos que o homem afugentado é um idoso, vivendo em situação de vulnerabilidade no momento em que uma pandemia faz de pessoas como ele suas maiores vítimas.

Me senti envergonhada e traída. Sim, porque ver um restaurante que você ama e recomenda tratar alguém dessa forma tão desumana é como uma traição. Nós, consumidores, nos orgulhamos dos lugares que frequentamos. Depositamos neles nosso dinheiro suado e isso faz parte de escolhas importantes em nossas vidas. Com aquela situação, Ghada também me desrespeitou.

Lembro que quando houve a explosão no Líbano, em agosto, a FOLHA entrevistou o Salam, dono do restaurante, e ele disse estar muito triste com o sofrimento que seu povo estava passando no país. Escrevi um comentário no instagram que foi parar no Folha nas Redes, prestando minha solidariedade a ele e a todas as famílias de origem libanesa, dizendo que, do mesmo jeito que celebro sua comida, também compartilho a sua dor.

Agora, vejo o Salam em um vídeo minimizando a agressão ao morador de rua, com a justificativa de que sempre ligava à Assistência Social, mas que ela não prestou apoio a essas pessoas. Desculpe, Salam, mas isso não vai redimir o erro cometido pelo seu estabelecimento. Eu sei que todo mundo erra e está aí uma oportunidade para vocês melhorarem. Na gestão de crise, há um preceito básico para agir quando alguém ou alguma empresa está envolvida nesse tipo de situação: pedir desculpas e tomar uma atitude. Essa atitude, geralmente, diz respeito a mitigar o erro. Pode ser o comprometimento com alguma causa, como a das pessoas em situação de vulnerabilidade, apoiando ONGs e associações que trabalham com elas.

Entendo, como foi mostrado na reportagem da FOLHA, que os estabelecimentos da região se incomodam com os moradores que abordam clientes ou atrapalham o fluxo de pessoas. Só que como já vimos, jogar água não ajuda em nada, aliás, só atrapalha. É preciso buscar outras soluções, dialogar com associações e os órgãos públicos competentes.

Então, fica o meu pedido como uma cliente fiel: quero voltar a me orgulhar do Restaurante Ghada. Quero poder comer com vocês e recomendá-los com a alegria que sempre senti. Por favor, assumam seus erros e tomem uma atitude correta, pois é assim que nós, seres humanos errantes, devemos fazer para tentar melhorar o mundo a nossa volta.

Julia Moreira, jornalista

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