A moral tem implicações políticas e econômicas. Na Idade Média, a Igreja condenava os juros. Hoje, se tal censura perdurasse, nenhum católico poderia ser banqueiro ou agiota. Mas, por ironia do destino, o próprio Vaticano possui o Banco do Espírito Santo...
A ética protestante sempre recomendou a seus fiéis afinco no trabalho e modéstia nos gastos, incentivando a poupança. Alguns autores acreditam que tal ética foi decisiva para enriquecer países de forte tradição protestante, como a Alemanha, a Suíça e os EUA.
No capitalismo, a moral predominante na sociedade é ambígua e contraditória, pois o valor maior para o sistema é a acumulação do capital. Assim, na ''moral'' desse sistema a propriedade privada é um valor acima da existência humana. Basta conferir a reação de alguns ruralistas em relação às demandas do MST. Se um homem tem fome, diz a doutrina da Igreja, ele tem direito de fazer uso da propriedade alheia. ''Maior e mais divino é o bem do povo que o bem particular'', lembra São Tomás de Aquino (De Regimine Principum - Sobre o governo dos príncipes - 1, I Cap. 9).
A lógica do capital procura atrelar a ética social a seus interesses e objetivos. Para ela, é aceitável o assassinato de crianças de rua ou de líderes sindicais que lutam por reforma agrária. Incute, inclusive, no tecido social uma dupla ''moral'', a privada e a pública. O mesmo presidente da empresa que paga o anúncio pornográfico na TV proíbe em casa que sua filha use fio dental na praia. O mesmo comerciante que chama a polícia para o garoto que lhe furtou uma lata de sardinhas aumenta os preços de modo exorbitante e sonega o fisco. O mesmo vigário que prega a participação dos leigos na vida eclesial fecha as portas da igreja se as coisas não correm a seu modo...
A lógica do capital destrói os valores morais e corrói a ética. Foi feita uma pesquisa nos EUA para saber em que fase da vida uma pessoa consome mais. Verificou-se que é quando ela casa. Um casamento sempre desencadeia consumo, desde as alianças à nova moradia, passando pela roupa dos convidados aos presentes. Resultado, ''façamos com que as pessoas se casem várias vezes''. Não é de estranhar que as novelas de TV considerem caretice a fidelidade e incentivem tanto a rotatividade conjugal.
FREI BETTO é escritor e assessor da Presidência da República para o Fome Zero

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