ESPAÇO ABERTO - Capitalismo às avessas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de outubro de 2003
René Ruschel 
Tristão de Athayde, um dos mais brilhantes intelectuais e pensador católico brasileiro, costumava dizer que o Brasil era um país feito às avessas. Justificava tal argumento lembrando que ''quando optamos por um modelo de transporte rodoviário o mundo todo incentivava a construção de ferrovias; depois produzimos caminhões sem termos estradas e criamos universidades sem combater o analfabetismo''.
Na verdade era uma síntese de raciocínio para dizer é por isso que somos o que somos. Em Pindorama, ainda caminhamos na contramão da história ou, pelo menos, somos testemunhas que alguns setores são cada vez mais eficientes na arte de não enxergar o óbvio quando se trata da defesa dos seus interesses.
Recentemente a jornalista Miriam Leitão, de O Globo, ao analisar a crise da indústria automobilística afirmou que por aqui, ao contrário do que acontece em países desenvolvidos, os empresários costumam pedir socorro ao governo tentando sensibilizá-lo a reduzir os impostos com a promessa que o mesmo ocorrerá em relação os preços. Superado o impasse e com a queda das alíquotas aceita, as empresas voltam a reajustar os valores dos bens enquanto as tarifas permanecem mais baixas. Foi exatamente o que aconteceu recentemente com o acordo entre governo e montadoras, onde, segundo elas, era válido apenas para os carros modelo 2003 e não para os 2004. É o que podemos chamar de capitalismo sem riscos.
Nos últimos dias o ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, tocou o dedo na ferida em relação aos juros bancários. Falando a uma platéia de empresários em São Paulo, Dirceu foi enfático ao questionar quando ''os bancos vão reduzir suas taxas de juros'' nas mesmas proporções da queda dos juros reais. Mais: afirmou que o Brasil é um desses países ''fantásticos'' em que o sistema bancário não financia a produção e o investimento e vive da ''tesouraria''.
Não é preciso ser nenhum ''phd'' em finanças para se certificar dos lucros astronômicos auferidos pelos bancos. Apenas um dado elementar é capaz de dimensionar este abismo: a taxa média anual de juros no cheque especial cobrada pelos bancos neste mês de setembro, segundo a Fundação Procon-SP, foi em torno de 166,27% ao ano. No mesmo período o rendimento da caderneta de poupança não passou dos míseros 11,18% ao ano.
Estudos econômicos mostram que o mercado interno brasileiro é enorme, no entanto, o poder de compra da população é baixíssimo. Se não há demanda, consequentemente a oferta é pouca porque a indústria não produz; com isso o desemprego cresce e a renda das famílias despenca. Por outro lado, às taxas de juros são altíssimas e funcionam como fator inibidor dos investimentos privados ou do financiamento direto ao consumidor.
Assim, à medida que este círculo vicioso se expande o Brasil entra num processo de derrocada e os resultados, tanto econômicos como sociais, podem ser vistos em qualquer esquina da pátria-amada. Ora, se lógica do sistema capitalista é exatamente o consumo - e os riscos - alguma coisa neste país está errado, afinal, continuamos caminhando às avessas. O que ninguém sabe é onde vai dar esta história.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


