ESPAÇO ABERTO - Campanhas para o dinheiro
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Bruno Maffi 
Não faltam campanhas publicitárias para indicar os melhores bancos, as melhores formas de poupar, de comprar, de investir. Cuidar do dinheiro é uma prática que o ser humano continuamente vive aprendendo. Nos tempos de crises econômicas, como a última mundial que vivemos, os economistas apontam onde estão os erros nos investimentos, nas arrecadações, etc. Nesses períodos surgem grandes sábios proclamando seus ensinamentos ou profetizando catástrofes: são os professores, economistas, cientistas do mundo financeiro.
Agora vemos outra campanha, outra forma sábia de falar sobre o tema, dessa vez serão os padres, pastores e lideranças religiosas que irão ensinar. Não se trata de grandes exemplos aplicados ou fórmulas mágicas a serem seguidas, são reflexões sobre como deveria ser a economia, da casa da família até a esfera global.
Lembremos que a origem da palavra economia é grega, e significa justamente isso, ''cuidar da casa''. O tema da Campanha da Fraternidade de 2010 - ''Economia e vida - não se pode servir a Deus e ao dinheiro'' - vem colocar o dedo nessa ferida.
Há um perigo nessa reflexão. Há que se levar em conta que diante do dinheiro somos como um pintor diante de uma tela em branco. É a inspiração do pintor que definirá os contornos da obra. A beleza ou o estranhamento de sua arte está dentro de si, a tela será apenas um reflexo disso. Ela não é um deus, não é necessário temê-la. É necessário temer a força criadora que há no homem, que o torna capaz de criar vacinas, mas também bombas.
O dinheiro não é um mal. Ele pode favorecer a vida, como vimos nas inúmeras doações às vítimas do terremoto no Haiti. O grande vilão a ser perseguido não é o dinheiro, mas o impulso negativo que há no ser humano. Se há um ídolo a ser destruído é aquele criado pelo homem no altar de sua consciência, o desejo demais, que muitas vezes passa por cima de outros valores para conquistar seus objetivos.
Os demônios modernos, a serem exorcizados, são os acúmulos exorbitantes, o descontrole no gastar, o esbanjamento do dinheiro. É assim que esse bem necessário pode se tornar um mal na vida humana, quando for usado sem controle. Poderíamos então enumerar uma lista de outros ''não podeis servir a Deus e a isso, ou aquilo''.
Não acredito ser justo dizer que deveríamos buscar a Deus com o mesmo desejo que buscamos ganhar dinheiro. Não posso entender duas coisas tão diversas sendo comparadas. Não acredito ser justo dizer que, quando compramos algo para aumentar o conforto de nossa família, estamos criando diferença social, porque alguns não possuem a mesma condição. Há que se nivelar por cima, ''assim na terra como no céu'', que todos tenham ''vida em abundância''.
O trabalhador que merecidamente recebe seu salário não está cometendo um crime ao comprar um novo aparelho de TV, só porque seu vizinho desempregado não possui o dinheiro para fazer o mesmo. Seria isso injusto? Com quem? Com o que está desempregado ou com o que trabalhou para comprar?
Há um risco em julgar o ''acúmulo de bens'' de alguém, há que vasculhar em nossas próprias paredes se não temos acumulado também.
Que bom seria se essas campanhas mostrassem resultados, primeiro, em nossas próprias assembleias.
BRUNO MAFFI é jornalista em Londrina
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