ESPAÇO ABERTO - Camiseta furada
Sempre que vejo alguém com Guevara no peito, penso dizer que é camiseta furada; explico: quando ele foi torpemente executado, nos meus 17 anos chorei muito, também comunista e crente em revoluções em vez de evolução. Depois conquistei consciência e fui reavaliando Che.
Jovem médico, deixou a Argentina para motoquear pelo continente, parando para cuidar de gente doente mas, também, lançando-se a grande rio para travessia a nado, prenunciadora desses dois eixos de sua personalidade, a exibição e a aventura.
Na guerrilha cubana deveria ser só médico mas, no "Combate de Arroyo Grande" (na verdade emboscada a uma patrulha), avançou sob tiroteio para recolher armas de sargento abatido por Fidel, daí ganhando status de combatente. Ousadia era outro traço dominante de sua personalidade.
Embora médico, voluntariamente comandou inúmeros (pois não sabe quantos) dos fuzilamentos sem julgamento após a conquista do poder em Cuba. Via esses "justiçamentos" como dever em prol do novo mundo almejado pelo comunismo, na ilusão de que violência possa gerar evolução.
Exibiu-se pelo mundo, até na ONU e no Brasil, desfiando frases de efeito enquanto negligenciava na governança cubana, onde foi ministro da Indústria esquecível, até porque cuidar da nação lhe parecia missão muito menor que exportar a revolução. E Che se projetou como estrela internacional, sua emblemática foto ostentando estrela na boina como símbolo de iluminado redentor.
Atendendo ao chamado da heroicização, foi ao Congo implantar guerrilha fracassada porque importada, tão pretensiosa quanto ignorante das condições locais. Andou pela Latinamérica até resolver que a pobreza da Bolívia seria campo ideal para uma guerrilha vitoriosa, só esquecendo de combinar direito com o Partido Comunista Boliviano, que não o apoiou, e com os camponeses que apenas estranharam os guerrilheiros, como fizeram também os camponeses brasileiros com a Guerrilha do Araguaia. Hoje, porém, Che é cultuado como santo na região, comunista recebendo rezas, contradição expressiva da inconsciência popular a seu respeito.
Li chorando seus Diários da Guerrilha. Décadas depois, relendo não só com o coração, vi claramente que era guerrilha claramente destinada ao fracasso. Os poucos sobreviventes alegaram que foi devido a ser descoberta precocemente, mas indício eloquente de seu despreparo e ingenuidade é o destaque que Che dá ao leite em pó armazenado em esconderijos, e que teria feito muito falta aos guerrilheiros desamparados.
Mas os encantados pelo Che, com sua cara nas camisetas, não sabem que cultuam um fracassado, não só pelas suas duas guerrilhas como por seu sonhado socialismo não ter funcionado em nenhum país. Sua mística provém certamente de sua visão humanizante do socialismo: "Lutamos contra a miséria mas, ao mesmo tempo, contra a alienação. Se o comunismo passa por alto os fatos da consciência, poderá ser um método de repartição, mas já não é uma moral revolucionária". Hoje, sabemos que a moral do socialismo autoritário foi sabotada pela mesma corrupção e ineficiência social do capitalismo liberal. E ressalte-se sua rudimentar crença em "repartição" de riquezas, método infalível para levar qualquer país à miséria, em vez de criação de oportunidades para prosperidade.
Sua mística provém das fotos e das tantas frases de efeito como "um revolucionário verdadeiro é guiado por grandes sentimentos de amor". Pena que, na prática, tenha traído as próprias palavras, como fazem tantos políticos rejeitados pelos mesmos jovens com camisetas do Che, ignorantes de sua vida real e crenças autoritárias, sempre endurecendo embora a exaltar a ternura. Sem consciência, as camisetas aceitam tudo, de Harvard a Guevara, como se não tivesse importância o que se ostenta no peito.
DOMINGOS PELLEGRINI (escritor) - Londrina
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