Seria a busca religiosa a clareza da tendência individualista de nossos dias? Talvez sim, caso consideremos ter a religião a pretensão da perseguição contínua e duradoura.
Para o homem religioso, o alcance do sagrado é a tentativa de comunicação com um Deus (deuses). É a sede de se ver como ser. É a tentativa de se viver o presente histórico unido à pretensão de eternidade, como que participante da suposta santidade da vida.
A própria realidade moderna, difícil, confusa, competitiva, faz com que o indivíduo busque um sentido para o ''mundo cão'', já que o homem moderno tende a reconhecer-se como sujeito e agente da história.
Ao mesmo tempo, em uma dicotomia, pode encontrar no sagrado um obstáculo a sua liberdade. Ou seja, o homem moderno deseja ser livre, mas sem a convicção de que pode fazê-lo sozinho. Deseja ser altamente racional, mas não consegue encontrar respostas para suas indagações e desesperos.
Como bem nos fala Mircea Eliade (1992), ''toda crise existencial é uma crise religiosa'', sendo a religião a solução exemplar de toda deficiência da existência. A busca religiosa, além de assegurar certa integridade, também pode oferecer soluções para as dificuldades do vivente.
Mas o que é certo? Provavelmente, o que dá ao ser humano respostas ou alívios imediatos. É como se a doutrina religiosa devesse vir acompanhada de magias.
Normalmente, o homem precisa sentir-se o centro do mundo. Quem lhe der essa sensação, provavelmente o terá. Talvez, aí o segredo para o sucesso de inúmeras igrejas oportunistas, que transformam a fé em um grande negócio, invadindo canais de televisão, estações de rádio, jornais, revistas, internet.
O homem não religioso não deixa, normalmente, de sê-lo, ao participar de rituais com correspondências em ciclos: Natal, Ano Novo, Páscoa e tantos outros dias santos. É como se dissesse: ''Não sou tão religioso, mas também, apesar das dúvidas, não desprezo o que é considerado como tal''.
A Igreja Católica, por sua vez, faz parte da cultura brasileira. Não há como fugir dessa afirmativa. Teve e tem percalços políticos, dúvidas de posturas, falhas estruturais. Porém, ao que parece, não foi, historicamente (ao menos no Brasil), tão rigorosa ao ponto de impedir outras buscas. E mantém-se assim. Luta para manter-se cativante e maior. Talvez porque saiba, no fundo, que tanto ela quanto outras tendências, buscam, na essência, o mesmo. ssim como os indivíduos que, ao não terem certeza do caminho, mesmo inconscientemente, persistem na procura pelo que os conforte.
Historicamente, as ligações entre religião e política foram desprezadas. A partir da década de 1910, no entanto, trabalhos e pesquisas passaram a analisar as atitudes políticas segundo posições religiosas.
Atualmente, as forças religiosas são consideradas por muitos como fator de esclarecimentos de posições políticas em boa parte do mundo. E não pode ser diferente, mesmo que, aparentemente, as duas práticas sejam distintas (enquanto a religião aparenta ser de cunho estritamente privado ao dizer respeito à intimidade, a política parece dizer respeito ao que é coletivo).
Tal dissociação parece não fazer sentido, se considerarmos que a crença religiosa manifesta-se em igrejas. Como tal, estas difundem interdições, juízos de valor e advertências, gerando comportamentos que são refletidos em convicções coletivas.

AGNALDO KUPPER é professor em Londrina


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