ESPAÇO ABERTO - Brasil, um gigantesco bife cru
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de abril de 2004
Daniel Steidle 
Está em diversos espaços públicos o cartaz da Exposição 2004 de Londrina. Sob um fundo azul escuro se destaca no cartaz um prato branco servindo um bife cru no formato do Brasil com um pouco de gordura no seu território, na lateral direita, que poderia representar a Mata Atlântica. Ainda fazem parte da porção no prato, grãos de soja formando o Estado do Paraná e, mais ou menos onde no mapa fica Londrina, um grão de café vermelho. Uma obra de arte sem dúvida que chama atenção e que poderia render interessantes discussões.
Desde criança a Exposição de Londrina faz parte da minha vida. Hoje, com 41 anos, não lembro mais como eram os cartazes anteriores. Lembro dos bois gordos, dos tratores, do chapéu mexicano e do meu tio americano que expôs, sem fazer sucesso na época, uma máquina marcadora com espuma. Também lembro de uma edição da Exposição de Londrina na qual, depois de descermos a montanha russa, estava com minha amada no alto de uma roda gigante vendo um visual espetacular do mundo debaixo de nós, numa paz absoluta que nos inspirou a querer casar. Casamos.
Ao lado divertido e romântico, a Exposição de Londrina deste ano se destaca, de acordo com o cartaz, como a maior exposição da América Latina com o grande negócio da carne e da soja, fazendo do Brasil ''líder mundial na produção de alimentos seguros''.
Parece implicância, diante de tantos superlativos, querer discutir arte e política de um cartaz que talvez agrida os vegetarianos (que, no final das contas, também se alimentam de seres vivos) ou aqueles que não podem ter um bifão daqueles no prato. O progresso se supõe, está a caminho de satisfazer os desejos da maioria dos necessitados. Em nome do progresso a soja se expande no Brasil. A soja está entrando na última e maior floresta contínua do mundo, a Amazônia. Os bois no Brasil, mais do que os 170 milhões de brasileiros, ganham cada vez mais mercado pela forma natural como são produzidos, atraindo consumidores estrangeiros assustados com a vaca louca e outras doenças.
Uma discussão dessas, entre ''desenvolvimento'' e questionamentos sobre este, costuma no Brasil rapidamente ser jogado para o campo das paixões, do conflito entre ambientalistas, ruralistas, esquerda, direita e assim prevalece um modelo de um progresso cada vez mais poderoso, unilateral e inquestionável.
Essa certeza nós torna pobres, vulneráveis e fracos. Qualquer criador de gado sabe como são importantes os choques de sangue. Que das misturas podemos ter indivíduos mais resistentes, seja boi, planta ou gente. Que a diversidade é o nosso grande patrimônio. É aí sim, o Brasil é campeão! Um campeão que merece ser melhor divulgado, conhecido e aproveitado a partir de todas as suas cores e qualidades, naquilo que a natureza deixou para nós.
Um meio ambiente rico mas em perigo e que não pode continuar para grande parte dos brasileiros apenas como fonte inesgotável, enfeite, maquete, propaganda ou empecilho para o progresso. Temos que sair do impasse ''ambientalismo x progresso''. Quem sabe, com um pouco de boa vontade de todos os lados, sermos surpreendidos por outras visões? Visões que se refletirão em cartazes que oferecem propostas mais abrangentes.
DANIEL STEIDLE é agricultor e ambientalista em Rolândia


