ESPAÇO ABERTO - Bomort-38 se impõe ao covid-19
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quinta-feira, 19 de março de 2020
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Jair Bolsonaro não se limitou a protagonizar a maior ofensiva de um presidente da República contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, ao endossar e participar dos protestos do dia 15 contra essas instituições, as quais, clamavam faixas e cartazes expostos durante a manifestação, deveriam ser fechadas e o AI-5 reeditado para dar ao chefe de Estado poderes ditatoriais. Afinal, essas instituições, em conluio com a “imprensa esquerdopata”, “atrapalham o governo”!
Bolsonaro superou todos os limites de decência, liturgia do cargo, zelo pela nação e sobriedade que se exigem de um presidente da República: manteve, ao pé da rampa do Palácio do Planalto, contato corporal com centenas de manifestantes, afrontando as recomendações do Ministério da Saúde para evitar o contágio e a disseminação do coronavírus.
Ele materializou, assim, seu desdém pela gravidade da doença, sobre a qual, em visita oficial a Miami, na semana anterior, disse haver “muita fantasia” e “histeria”. Seu comentário foi feito no mesmo dia em que a Organização Mundial de Saúde classificou o vírus como pandemia. No dia do protesto, dez membros da comitiva que o acompanhou à Flórida haviam testado positivo para o vírus, mais três seriam confirmados no dia seguinte e o prefeito de Miami, Francis Suarez, que os recepcionou, também. E Bolsonaro deveria, por ordem médica, estar em quarentena, apesar de o primeiro teste a que se submeteu ter dado negativo.
O “ato tresloucado” do presidente, na definição de um ministro do STF, foi repudiado pelos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, que no dia seguinte promoveram uma reunião com o presidente do STF, José Antônio Dias Toffoli, e com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para demostrar que, ao contrário do chefe de Estado, estavam preocupados com a saúde da população. Dois dos signatários do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, Janaina Paschoal e Miguel Reale Júnior, condenaram com veemência a afronta de Bolsonaro. “Esse senhor tem que sair da Presidência da República”, disse Janaina, e Reale Júnior propôs: “Seria o caso de submetê-lo a uma junta médica para saber onde o está o juízo dele”.
O desdém de Bolsonaro à gravidade da doença foi compartilhado por seus seguidores radicais, que a desafiaram motivados pelo culto incondicional que prestam ao presidente, ódio às instituições e crença em que o vírus é uma ação da China “comunista” contra o capitalismo ocidental e cristão. E as advertências para que suspendessem o ato para não se expor ao risco de contaminação foi interpretada como uma estratégia da “imprensa esquerdopata” visando esvaziar o movimento – que prometiam ser “o maior de todos os tempos” e se revelou um mico histórico tanto pela escassez de participantes quanto pela insanidade coletiva que representou.
Os slogans dos bolsonaristas, disseminados nas redes sociais, dão a medida do estado mental doentio deles. Cito dois: “Covid-19 na gente. Vamos morrer pelo capitão” e “Combatemos o comunavírus, muito pior que o coronavírus.”
Ao desafiar as recomendações para impedir a disseminação do coronavírus, Bolsonaro infringiu dois artigos do Código Penal: o 132 (“expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente”) e o 268 (“infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa”). Ambos preveem pena de detenção ao infrator.
Os protestos foram sugeridos pelo general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, que, revoltado com o poder do Congresso de determinar a aplicação de R$ 30 bilhões do Orçamento Geral da União – medida aprovada pelos dois filhos congressistas do presidente, Eduardo e Flávio -, acusou os parlamentares de “chantagem” e propôs um levante cívico contra eles. A proposta foi seguida do palavrão que se transformou em slogan dos manifestantes: “Foda-se!” Apesar de o Congresso ter reduzido, após acordo com o Planalto, pela metade os recursos sob seu controle, os protestos foram mantidos, com o aval de Bolsonaro.
O episódio mostrou que o covid-19, nome científico do coronavírus, foi derrotado pelo bomort-38 - analogia do nome do presidente, a consequência de seu ato e o número eleitoral de seu partido em criação -, que identifica o vírus do fanatismo que Bolsonaro incutiu em seus seguidores. Que, para felicidade geral da nação, como os protestos demonstraram, não passam de gado pingado.
José Antonio Pedriali, jornalista e escritor (Londrina)


