O termo bode expiatório é usado, no Brasil, para se referir a uma pessoa que paga, sozinha, pelas culpas de outras, ainda que tenha também sua parcela de responsabilidade. Assim, num caso de corrupção envolvendo diversas pessoas, em que apenas uma é presa, costuma se dizer: fulano é um bode expiatório.
O que poucos sabem é a origem desta expressão. Encontramo-la, no antigo testamento (Levítico, capítulo XVI): bode expiatório (ou emissário) era um bode que, na festa da expiação, os judeus expulsavam para o deserto, depois de o terem ''carregado com todas as iniquidades e maldições de que queriam livrar o povo''. A palavra expiatório é derivada de expiação quer dizer: ato ou efeito de expiar, remir (crimes ou faltas) por meio de penitência, ou cumprindo pena. Sofrer as consequências.
Isto nos dá oportunidade de explicar o porquê a Terra é, segundo a Doutrina Espírita, um Planeta de expiações e provas. Vejamos o que disse Santo Agostinho, através de diversos médiuns, em 1857, quando da codificação, por Allan Kardec:
''A superioridade da inteligência de grande número de seus habitantes, indica que a Terra não é um mundo primitivo, destinado à encarnação dos espíritos que acabaram de sair das mãos do Criador. As qualidades inatas que trazem consigo é a prova de que já viveram e realizaram certo progresso. Mas, também, os numerosos vícios a que se mostram propensos constituem o índice de grande imperfeição moral. Por isso Deus os colocou num mundo ingrato, para expirarem aí suas faltas, mediante penoso trabalho e misérias da vida, até que hajam merecido ascender a um planeta mais ditoso.
Entretanto, nem todos os espíritos que encarnam na Terra estão em expiação. As raças a que chamais selvagens são formadas de espíritos que apenas saíram da infância e que na Terra se acham, por assim dizer em curso de educação, para se desenvolverem com o contato com espíritos mais adiantados. Depois vêm as raças semicivilizadas, como as indígenas, que pouco a pouco em longos anos estão se aperfeiçoando.
Os espíritos em expiação se podemos exprimir assim, são exóticos, na Terra: já viveram noutros mundos, donde foram excluídos em consequência de sua obstinação no mal e foram levados para o meio de espíritos mais atrasados, com a missão de fazer estes avançarem, além do ''castigo'' deixarem um lugar melhor, (paraíso).
A Terra, então, é um mundo expiatório que tem como característica, ser um lugar de exílio para espíritos rebeldes à lei de Deus. Esses têm de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e a inclemência da natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e da inteligência. É assim que Deus em sua bondade faz que o próprio castigo redunde em proveito do progresso do Espírito.''
Com essas informações que nos fazem entender que os motivos de tantos sofrimentos e desgraças vamos refletir: haveria espaço, hoje em dia, para a crença na ''Festa da expiação''? Poderia alguém acreditar que é possível ''carregar um bode com todas as maldições e iniquidades'' e mandando-o para o deserto livrar-se dos males?
Qualquer pessoa, com o mínimo de bom-senso, responderá que isso hoje não passaria de superstição, sem lógica, embora ainda tenhamos notícias de rituais de sacrifício de animais e até de seres humanos, certamente, reminiscências daquela época e de pessoas que ainda acreditam que o antigo testamento é, literalmente, ''a palavra de Deus'', e não, em sua maior parte, a história do povo hebreu. Talvez, na crença no bode expiatório, esteja a razão pela qual ainda se acredita que o sangue de Cristo tenha lavado todos os pecados. Bode expiatório? Tomemos cuidado.
VALCIR JOSÉ MARTINS é bancário em Maringá

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