ESPAÇO ABERTO - Bíblia e ciência
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 2003
Frei Betto 
Einstein passou os últimos trinta anos de sua vida tentando unificar o eletromagnetismo e a gravidade. Não o conseguiu, mas, na opinião do físico brasileiro J. Leite Lopes, de seus esforços ''resultou a herança da unificação das quatro interações fundamentais da física: vida, paixão, morte e renascimento dos modelos inventados pelos físicos contemporâneos''. Seu equívoco foi começar pela gravidade, que domina o Universo.
Hoje, os cientistas estão convencidos de que a gravidade deve ser a última força a ser considerada. Quem lograr encontrar a teoria do campo unificado terá o privilégio de aproximar-se ainda mais da Estação Zero. Ficará sabendo como era o Universo a 1-43 (1 precedido de 43 zeros) de segundo de sua existência.
A teoria unificada será suficiente sem comprovação empírica? Ora, isso exigiria um superacelerador de partículas 1 septilhão de vezes mais poderoso do que o mais aperfeiçoado já concebido pela mente humana.
A ciência até hoje não sabe como explicar os dois eventos mais importantes: a criação do Universo e o surgimento da vida. Há cientistas, como Clodowardo Pavan, da USP, convencidos de que o enigma da vida cedo ou tarde acabará por ser decifrado em laboratório. O grande desafio seria a origem do Universo. Nem por isso devemos incorrer no erro de pretender extrair da Bíblia, em especial do Gênesis, uma explicação ''física'' de como o Universo teve origem e evoluiu. A intenção do autor bíblico era sublinhar o sentido da existência humana, da natureza, enfim, da Criação. As questões levantadas por ele não são de ordem biológica, química ou física, mas sim ética, filosófica, sapiencial e, sobretudo, teológica.
A Bíblia não pretende, em primeiro lugar, dar-nos uma visão do mundo, e sim manifestar-nos o amor de Deus. Em sua pedagogia, sugere que contemplemos a Criação a partir da comunhão afetiva e efetiva com o Criador. Por isso, os dados ''científicos'' utilizados pelos autores inspirados são meros esquemas narrativos baseados em concepções próprias do Mundo Antigo. Como observou Santo Agostinho no século IV, o Espírito Santo nos foi enviado, não para informar sobre a órbita do Sol, da Lua e das estrelas, mas para que possamos ser discípulos de Jesus.
Os capítulos iniciais do Gênesis não devem ser lidos como manuais de introdução à cosmologia, à antropologia ou à zoologia. Não são táticas e estratégias militares que o leitor busca na leitura de Guerra e Paz, de Tolstoi. Em seu caráter teológico, o relato bíblico, ancorado nas noções ''científicas'' da época, revela-nos o mundo como criação gratuita e amorosa de Deus e o ser humano como centro do Universo e filho de Deus. ''Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom'' (Gênesis 1, 31). Esse ''muito bom'' acentua a natureza paradisíaca da Criação. Se agora algo não está ''muito bom'' é por causa do pecado, a quebra da harmonia do ser humano com Deus, com os seus semelhantes e com a natureza.
FREI BETTO é escritor e assessor da Presidência da República para o Programa Fome Zero


