ESPAÇO ABERTO - Benevolência divina e incoerência humana
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de fevereiro de 2005
Aguinaldo Pavão 
Em respeito aos leitores da Folha de Londrina e também em respeito à memória de alguns filósofos, gostaria de me pronunciar novamente sobre a tsunami e a bondade de Deus. Em primeiro lugar, a tsunami não tem nada a ver com o problema do livre-arbítrio. Um terremoto subaquático que liberou energia equivalente a 2,12 milhões de bombas de Hiroshima, é simplesmente uma tragédia natural que revela a indiferença da natureza em relação aos desejos humanos, ou, se quiserem os fideístas coerentes, o insondável mistério da Providência. Incluo na lista de fideístas coerentes o teólogo Wanderley Frere, cuja sobriedade pude perceber no debate em que participamos na TV Tarobá, no último dia 24 de janeiro.
Outra coisa, em nenhum momento do artigo neguei a existência de Deus. Declarei-me agnóstico e o que fiz foi apenas colocar o ''dilema de Epicuro'', presumivelmente discutido no primeiro ano de qualquer curso de Teologia. Para relembrar, em resumo, o dilema é o seguinte: ou Deus é bondoso e impotente, quer e não pode, ou é onipotente e não-bondoso, pode mas não quer. Para essa questão não existem termos conciliatórios. Ou se aborda racionalmente esse problema, ou jogamos a toalha e nos amparamos no fideísmo.
Vejam que discordo de Voltaire, embora esteja trazendo à discussão um problema análogo ao que lemos em seu ''Poema sobre o desastre de Lisboa''. Ele era um deísta. E foi um deísta que colocou o problema da bondade divina face ao terremoto que arrasou a capital portuguesa. E não adianta citar nomes de cientistas ou filósofos que acreditavam e acreditam em Deus. Esse é um péssimo expediente, classicamente denominado de ''falácia de autoridade''. Ademais, repito, não é a existência de Deus que está em questão.
Sobre Hobbes, ele nunca se declarou ateu. Na III parte do ''Leviatã'', justamente o local da interpretação hobbesiana do Antigo Testamento, o filósofo inglês não se cansa de defender a existência de Deus. Hobbes chega a dizer, no capítulo IV, que Deus foi o primeiro autor da linguagem. Diz ainda, no capítulo XXI, que Deus é a causa primeira de todas coisas.


