ESPAÇO ABERTO - Autoritarismo e arrogância
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de maio de 2004
Leonel Brizola 
A atitude prepotente, autoritária e insólita de Lula ao expulsar do Brasil o correspondente do The New York Times, jornalista Larry Rohter, nada tem a ver com a defesa da soberania brasileira ou da dignidade do cargo presidencial. Faz tempo - e no governo Lula isso acontece seguidamente - que estrangeiros dão todo tipo de opinião sobre tudo no governo brasileiro e, aliás, até dizem o que nosso governo deve fazer em matéria de pagar juros, facilitar a especulação financeira, entregar as riquezas nacionais. Quando agentes do FMI e do Tesouro americano vistoriam os cofres da Fazenda, dizem o que querem e elogiam a política neoliberal de Lula, está tudo certo. Quando a sra. Asma Jahangir, da ONU, diz em pleno gabinete presidencial que pedirá inspeção internacional sobre o Judiciário brasileiro, numa evidente violação de nossa soberania, Lula aplaude e apóia. Mas se um jornalista várias vezes premiado, que vive há anos no Brasil, que é casado com uma brasileira, publica o que todos sabem, aí é uma ''ofensa à dignidade nacional''.
Eu fui uma das diversas pessoas ouvidas pelo senhor Rohter. Disse a ele o que vi, com meus próprios olhos. Quando fui vice na chapa presidencial encabeçada por Lula em 98, e fiz diversas viagens com ele em um jatinho e com outras pessoas a bordo, impressionou-me a maneira como consumia bebidas destiladas. Fraternalmente, como homem mais velho, que teve oportunidade de conhecer os males do consumo excessivo de bebida, falei algumas vezes com ele sobre isso, sem sucesso. O jornalista comentou que vinha falando com dezenas de pessoas, da situação e da oposição, para tentar traçar um quadro dos problemas que assolam o governo brasileiro. Para ter publicado algo sobre o assunto, certamente ouviu o mesmo de várias outras fontes que convivem ou conviveram com Lula, ainda que algumas delas possam não ter coragem de assumir publicamente o que, repito, todas as pessoas no meio político sabem sobre os hábitos do presidente.
Presidente e líderes políticos beberem, como quaisquer cidadãos, é característica pessoal, exceto quando passa a interferir no seu comportamento. É algo muito difundido e nunca foi considerado ofensivo. Getúlio, JK, Jango, Ulisses Guimarães e outros jamais esconderam seus hábitos. A questão é outra, porém. Nada disso teria repercussão se o governo Lula, este sim, não estivesse trocando as pernas. Seu governo perdeu sua identidade, sofre de amnésia dos seus compromissos públicos e tropeça a cada passo que dá na condução do país.
Mas pior ainda é o que este episódio revela: na ânsia de distrair a opinião pública dos descaminhos do governo e deste mais recente escândalo que foi a migalha infame dada ao salário mínimo, Lula não demonstra nenhum equilíbrio, atenta contra as tradições da liberdade de imprensa e comete um ato covarde. As repercussões deste reganho autoritário, estas sim, serão péssimas para nosso país. E aqui dentro, que jornalista se sentirá livre para dizer verdades que desagradem Lula e ao PT? Quem expulsa um repórter do país não seria capaz de pedir a demissão de um jornalista brasileiro aos donos dos meios de comunicação, muitos dos quais se encontram, todos sabem, na fila do BNDES à espera de empréstimos governamentais?
LEONEL BRIZOLA é presidente nacional do PDT


