ESPAÇO ABERTO - Autonomia universitária com responsabilidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de abril de 2004
Eduardo Di Mauro 
As universidades estaduais paranaenses que ao longo dos anos vêem defendendo uma autonomia responsável passou por momentos de grande turbulência nos últimos dias. Com a súbita divulgação do decreto estadual 2807, o Governo Estadual extinguia a autonomia das universidades estaduais do Paraná, vindo a controlar e decidir, através da SETI, uma série de itens que sempre foram tarefa das próprias instituições de ensino superior.
Tão logo tomou conhecimento do decreto, a comunidade universitária, percebeu que este representava um grande retrocesso na luta pela autonomia plena. Diante da influência constrangedora das universidades, o Governo do Estado suspendeu o decreto.
Crises como esta que ocorreu nos últimos dias podem suceder novamente enquanto as universidades estaduais do Paraná não tiverem conquistado o que lhe é de direito: a autonomia plena, que só ocorrerá quando concebida sob aspecto didático, científico, administrativo, financeiro e patrimonial. A falta de autonomia financeira compromete todas as outras e representa uma ''camisa de força'' aos objetivos inerentes da universidade.
Existem aqueles que defendem uma autonomia ilimitada para as universidades, na qual o Estado deveria arcar com todos os custos. Outros acreditam que as universidades devam atuar desvinculadas da sociedade que as mantêm.
Entendemos que autonomia universitária significa: liberdade para cumprir as finalidades de ensino, pesquisa e extensão com responsabilidade social. As universidades devem comprometer-se com metas previamente estabelecidas pela comunidade interna e externa, as quais precisam ser periodicamente e amplamente avaliadas, e se necessário, reorientadas de acordo com os anseios científicos e sociais.
Os recursos públicos que mantêm as universidades devem ser racionalmente utilizados e sistematicamente fiscalizados por órgãos internos e externos. Todas as informações referentes às universidades públicas devem ser disponibilizadas de forma transparente e acessível para todos.
Quanto ao financiamento de suas atividades, as universidades necessitam de estabilidade e regularidade no repasse dos recursos. É interessante, que estes recursos correspondam a um percentual e tenham vinculação direta com a arrecadação do Estado, e consequentemente, cresçam juntamente com este. Quanto ao desenvolvimento de pesquisa e tecnologia, há necessidade de que os recursos sejam distribuídos de forma regular e contínua com base no mérito científico e interesse social.
Para exemplificar, as instituições estaduais paulistas (USP, UNICAMP e UNESP) são mantidas com recursos de 9,57% do ICMS do Estado de São Paulo. Estas universidades públicas gozam de autonomia didática, científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial há mais de 15 anos. Os recursos para programas e projetos de natureza científica e tecnológica, também vinculados ao ICMS do estado, são financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) cujo orçamento foi superior a R$ 400 milhões em 2003, quando estas universidades representaram 52% de toda a produção científica brasileira. Será apenas coincidência ou autonomia com responsabilidade pode de fato funcionar?
Eduardo Di Mauro é vice reitor da Universidade Estadual de Londrina


