Assim começava o texto da reportagem que a Folha publicou no dia 30 de janeiro. Uma matéria, a princípio, encantadora: ''Irmã cede a barriga para gerar trigêmeos'', acompanhada de uma foto com um lindo abdome gravídico e três rostos muito sorridentes. Não estou aqui para julgar a generosidade da citada irmã, em que realmente acredito, mas para comentar certas posturas discutíveis em situações como esta.
Como já citava o relato, na fertilização in vitro, procedimento realizado para atingir a ''façanha dos trigêmeos'', os óvulos da mulher que não pode ter filhos são retirados e manipulados em laboratório junto aos espermatozóides do marido. No caso, depois de formados os embriões, eles foram inseridos no útero de uma terceira pessoa, a conhecida ''barriga de aluguel''.
Vejamos o que ocorre: é alta a frequência de gestações múltiplas que aumentam o número de nascimentos prematuros e o risco materno. É comum as más-formações congênitas - hermafroditismo e outras anomalias cromossômicas -, sem falar na baixa taxa de sucesso (número de nascimentos versus número de ciclos de tratamento aplicados) e no alto custo do método, devido ao grande aporte tecnológico e ao ''ótimo currículo'' dos médicos envolvidos. Por fim, podemos citar o caso mais dramático: a enorme quantidade de embriões mortos ou, no menos pior dos casos, congelados.
Dentre os embriões formados no tubo de ensaio pela fecundação in vitro, o técnico seleciona entre dois e nove, os mais perfeitos, com o fim de os introduzir no útero. Comumente, ocorre a inserção de três ou quatro embriões o que leva infelizmente ao processo chamado ''redução de embriões'', em que se diminui o número de conceptos no útero com o intuito de garantir a saúde materna e o maior sucesso na evolução da gravidez.
Dói mais ainda ler o texto da repórter contando que ''... o sucesso do procedimento veio apenas na segunda tentativa''. Cada um pode fazer a conta: quantas vidas humanas descartadas?
É engraçado, mas algumas vezes acaba-se por considerar um ''ato de amor'' uma ação nociva à dignidade humana e à nossa sociedade. Amamos verdadeiramente os outros quando valorizamos o que as pessoas - entre elas o embrião nascituro - têm de mais digno: o direito de nascer numa relação normal e o de ter sua vida protegida por aqueles que juraram um dia defendê-la.
MARCO AURÉLIO FORNAZIERI é estudante de medicina na Universidade Estadual de Londrina

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