Submetida à censura prévia durante boa parte do regime militar, e com jornalistas presos, torturados e mortos (estimados em 25, sendo Vladimir Herzog o mais notório), a imprensa voltou a ser ameaçada no governo petista e agora sofre bombardeio cerrado da ala radical do bolsonarismo.

Cristalizada durante o mandato de Dilma Rousseff e motivada pelas revelações da Lava Jato e mobilização para interromper o seu governo desastroso, a ofensiva petista materializou-se na proposta de “regulação da mídia”. Abortada por pressão da sociedade e do Congresso, a proposta mascarava a censura sob um conjunto de regras que limitavam a liberdade de expressão e submetiam as empresas de comunicação ao controle do Estado (e o Estado confundia-se com o partido) por meio de restrições econômicas e legais.

Não foi só: para se contrapor às verdades que não admitia, o governo petista criou uma rede de contrainformação, baseada em fakes news e ataques a seus adversários. Essa rede foi composta principalmente por blogs, financiados por empresas públicas e sindicatos alinhados ao petismo.

Jornalistas e veículos de comunicação sofreram ataques implacáveis dessa rede, que, guardadas as devidas proporções, funcionava à semelhança da Gestapo nazista. A hostilidade incluiu ameaças e agressões físicas, culminando na depredação da portaria da Editora Abril, em represália à reportagem da Veja sobre a delação do senador petista Delcídio do Amaral envolvendo Lula no butim da Petrobras.

Na campanha eleitoral do ano passado, e com a Gestapo digital petista fragilizada por falta de recursos, mas tão radical quanto no período das vacas gordas, surgiram, empunhando todo tipo de impropérios contra a imprensa e os jornalistas, os seguidores fanatizados pelo “mito” Jair Bolsonaro. A devassa de sua vida e posturas radicais, entre elas a apologia do que o regime militar praticou de mais hediondo – a tortura e o assassinato -, despertou nas hostes bolsonaristas, e em seu líder, o ódio visceral à imprensa.

O ódio persiste. E persiste porque a imprensa não se curvou, como não se curvara antes, ao mandatário de plantão, que se comporta no comando da vida nacional como o deputado que pautou a carreira na truculência verbal e absoluta falta de iniciativa e consciência parlamentar. Bolsonaro recusou, nos três primeiros meses de mandato, encontros com jornalistas e ameaçou cortar a publicidade oficial de veículos que o criticassem. Pressionado, baixou o tom.

Mas a rede subterrânea de contrainformação e difamação, controlada por um de seus filhos e operada por servidores lotados no gabinete presidencial, não dá trégua.

Essa rede se diferencia da petista porque não tem (por enquanto) financiamento público, utiliza o Whatsapp como veículo prioritário (a disseminação é mais fácil e o rastreamento mais difícil) e se apoia na legião de bolsonaristas condicionados a idolatrar o “mito” e considerar “esquerdopata”, “comunista” e “antipatriota” todo aquele que ouse criticá-lo. E sequiosa por fakes news na mesma proporção em que rejeita o noticiário sério.

O mais irônico, e ao mesmo tempo injusto, dessa campanha de hostilidade é a acusação dos bolsonaristas de que a imprensa foi “omissa” sobre os crimes praticados pelo PT. Omissa foi a maior parte dessa legião (há muitos eleitores enrustidos de Lula e Dilma em suas hostes), que somente se rebelou contra o PT graças aos alertas da imprensa. Essa horda usa a imprensa, portanto, como álibi para o seu crime de omissão e cumplicidade.

Bolsonaristas hoje, petistas ontem, ditadura anteontem: os autoritários passam, a imprensa fica. E enquanto houver imprensa livre – instituição comemorada mundialmente no dia 3 de maio -, haverá o Estado de Direito.

*JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista (Londrina)

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