ESPAÇO ABERTO - As pazes na cama?
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de dezembro de 2004
Moacir Costa 
Existem casais que só conseguem resolver seus conflitos fazendo sexo. É como se a cama fosse o único cenário possível para a resolução das discórdias conjugais.
O perigo desse tipo de comportamento é que os parceiros param de conversar sobre seus problemas e suas diferenças e só encontram na linguagem corporal o caminho para o ''entendimento mútuo''.
O sexo, por sua vez, é completamente desconectado do afeto, num ato que não difere muito de um mero exercício físico. Além disso, quando o homem ou a mulher insistem na supervalorização do sexo, o casal tende a se sentir desconfortável porque continua transportando uma carga negativa não resolvida dentro de si.
Muitas vezes, a vontade da pessoa não é fazer sexo naquele momento e, sim, sentar e resolver a questão. Mas quem opta por fazer as pazes na cama não sabe se expressar de maneira franca e objetiva. Acha que um contato mais quente pode fazer o parceiro esquecer a mágoa ou o ressentimento. O problema é que no fim da relação sexual o conflito se mantém. E o pior: não há espaço para voltar a falar sobre o assunto, sendo que tudo aquilo que foi guardado ou escondido mais cedo ou mais tarde vai gerar ressentimentos e reduzir a imunoresistência facilitando o surgimento de doenças. É apenas uma questão de tempo.
Diante de tantos conflitos, a única certeza possível é que as diferenças entre os dois sexos devem ser respeitadas. Tanto o homem como a mulher precisam entender que cada um tem a sua maneira de ver o mundo, expressar seus sentimentos e de se relacionar. Assim, as diferenças deixam de ser um fator de atrito e distanciamento e tornam-se um aditivo para uma relação com mais sintonia e prazer.
O melhor a fazer, quando houver pontos de atrito, é dar um tempo, como se diz, e se afastar do companheiro. Depois, com a cabeça mais fria, vale a pena convidá-lo para uma conversa. E quanto mais longe do cenário do amor, melhor, porque a energia negativa que muitas vezes emana dessas situações perturbadoras tende a ''contaminar'' um espaço que deveria ser preservado.
Definitivamente, a cama não é o lugar ideal para conversar sobre problemas cotidianos, como falta de dinheiro, contas a pagar, brigas dos filhos, atritos com familiares ou colegas de trabalho. Como os indianos, que cultivam o tantrismo, o quarto deve ser respeitado e cuidado apenas para o repouso, sexo e prazer.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo


