A quinta edição do Fórum Social Mundial, que aconteceu em Porto Alegre (RS), contou com uma intensa participação dos movimentos de mulheres e de grupos feministas. Mulheres ativistas dos vários cantos do Brasil e do mundo reuniram-se e engrossaram a voz dos que defendem o lema de que ''um outro mundo é possível''.
Fiéis à tradição feminista de luta contra todas as formas de desigualdade, discriminação e preconceito e em defesa da radicalização da democracia, com vistas a uma sociedade justa e igualitária, as feministas promoveram uma diversificada agenda no FSM. Das questões específicas, como o lançamento da campanha pela legalização do aborto, às questões mais gerais, as feministas fizeram-se ouvir nos vários espaços do Fórum.
Nos eventos em que estavam ausentes na composição das mesas, as feministas iam às platéias e mesmo assim ecoavam sua voz. Estar presente nos espaços de poder do Fórum não deixa de ser uma luta para nós, que ainda carregamos o estigma do ''outro''.
Exemplar neste caso foi um debate sobre poder. Uma mesa composta por quatro homens brancos. Em que pese a ''distração'' dos organizadores deste debate, seu mais ilustre convidado chamou a atenção da platéia para a contradição ali presente. Boaventura de Souza Santos perguntou-nos: ''É possível debater a transformação do poder e a radicalização da democracia com uma mesa só de homens brancos?'' Assim Boaventura explicitava o problema da ausência das mulheres, dos negros, dos índios e demais grupos minoritários. Destacou a importância dos movimentos e das teorias feministas para o questionamento das noções tradicionais de poder e democracia. Quando as feministas afirmaram, há décadas, que ''o privado também é político'', colocaram nova luz sobre o problema do poder e da dominação e redefiniram com isto a agenda pública. Para Boaventura, esta é uma noção fundamental para se construir um outro mundo possível, de forma que a voz das mulheres é uma presença necessária.
O Manifesto de Porto Alegre, um conjunto de doze propostas para a construção de um outro mundo possível, traz como uma das propostas ''lutar por políticas públicas contra todas as formas de discriminação (sexismo, xenofobia, anti-semitismo e racismo)''.
A efetivação desta proposta demanda a existência de movimentos sociais autônomos e fortes, dentre eles os movimentos de mulheres, que possam pressionar os governos de fora para dentro. Igualmente, demanda a existência de instituições estatais também fortalecidas para orientar e implantar as políticas públicas. Tratando-se das mulheres de Londrina, temos a Secretaria Municipal da Mulher, o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e um amplo movimento de mulheres. Somente a conjunção desses fatores pode levar as definições do FSM a quem de fato dele precisa.
SILVANA APARECIDA MARIANO é socióloga em Londrina e doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp/Campinas

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