ESPAÇO ABERTO - As esferas pública e privada
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de abril de 2004
Gaudêncio Torquato 
''Quero ser algo mais que uma rosa na lapela do meu marido''. O desabafo de Margaret Trudeau, a jovial esposa do canadense Pierre-Elliot Trudeau, primeiro ministro do Canadá durante 15 anos (1968-1979/1980/1984), expressa o dilema vivido pelas mulheres dos mandatários: ajudar o marido, servir-lhe de assistente dedicada, sempre disposta a representar papéis secundários, cuidando dos espaços e aposentos oficiais, ou assumir posições mais proeminentes, liderando movimentos e programas de cunho social?
Esta questão vem à tona no momento em que a primeira-dama, Marisa Letícia, ganha espaços da mídia com a interpretação de que teria autorizado a sugestão de um jardineiro para decorar os jardins do Palácio da Alvorada e da Granja do Torto com sálvias vermelhas, no formato da estrela do PT. A jovem Trudeau, no ardor de seus 27 anos, só conseguiu muito estardalhaço em seu papel de primeira-dama.
Dona Marisa, diferentemente da canadense, mostra-se conformada com o papel de esposa-mãe-dona de casa e discreta acompanhante do marido, apesar de dispor de um gabinete oficial no Palácio do Planalto. Não teve certamente nenhuma intenção de fazer barulho com a estrela do PT fincada nos jardins palacianos nem mesmo imaginou desfigurar o projeto arquitetônico original.
A naturalidade, porém, com que a estrela petista foi cultivada em espaço público está a revelar uma das mais escandalosas mazelas da cultura política: a imbricação entre as esferas pública e privada, cujo corolário é a perpetuidade do patrimonialismo, este eixo do Estado brasileiro durante o império escravagista e herança da tradição político-administrativa da sociedade luso-brasileira.
A estrela do PT em jardins públicos simboliza a mescla de marketing espalhafatoso e cultura patrimonialista, pela qual a posse da propriedade pública se confunde com o exercício do próprio poder. Trata-se, no fundo, da intersecção dos poderes público e privado, com o uso (e abuso) do primeiro pelo segundo. Os mandatários, que devem o poder ao povo, acabam se ''apropriando'' dos mandatos, tornando-os instrumentos para a criação e expansão de feudos.
É verdade que o processo de apropriação da ''res publica'' pelo agente privado não é exclusividade do PT, sendo esse um processo que se incrusta nas malhas dos três níveis da administração pública do País. Mas, sob o governo do PT, a invasão do território público tem sido mais feroz. Basta ver a sede dos quadros petistas quando chegam ao poder nas prefeituras, governos estaduais e, agora, na administração federal. Multiplicam-se as contratações de assessores, os cargos em comissão e as funções gratificadas, com salários elevados. Na área federal, os 22 mil cargos são ocupados de maneira quase vertical. E a regra é praticamente a mesma dos antigos coronéis da política: ''aos amigos pão, aos inimigos, pau''.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político


