ESPAÇO ABERTO - As ciências sociais a serviço da liberdade
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de janeiro de 2004
Francisca Vergínio Soares 
Norberto Bobbio, morreu aos 94 anos no inicio deste mês no Hospital Molinette de Turim de uma irreversível crise respiratória. Formou-se em Filosofia e Direito, na universidade local, além de professor de filosofia do direito, ciências políticas e filosofia da política era também senador vitalício da Itália desde 1984. Era considerado a consciência crítica da esquerda italiana e um dos pensadores mais atuantes do século 20.
Aos 26 anos, chegou a ser preso por ter se oposto ao regime fascista. Mas, nos anos 90, quando foram abertos alguns arquivos do tempo desse regime, pesquisadores encontraram uma carta que Bobbio escrevera a Benito Mussolini (1883-1945) e na qual elogiava o fascismo. O filósofo explicou que esse fora a única forma encontrada por ele para salvar sua vida. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), atuou no movimento de resistência antifascista e integrou o Partido de Ação, grupo de radicais de esquerda que mais tarde ajudaram a moldar a política pós-guerra. Em 1975, iniciou também, em seu país, um debate sobre socialismo, democracia, marxismo e comunismo, o que muito influenciou as novas gerações de toda Europa.
Em seu compromisso com a liberdade, o filósofo insistiu em preservar os melhores valores presentes na trajetória do liberalismo, combinando-os, completando-os e corrigindo-os com os melhores valores criados pelo socialismo. Definia-se como um liberal que, em princípio, não recusava o socialismo, mas cobrava dos socialistas explicações relativas de como pretendiam governar e pedia que explicitassem que garantias dariam aos cidadãos em geral para atuarem politicamente de maneira efetivamente livre.
Bobbio se sentia radicalmente comprometido com o correto entendimento do presente, com uma compreensão realista (por isso, relativista) da verdade. Realizou um enorme esforço para evitar ao máximo ceder a qualquer ilusão ou acolher teorias consoladoras. Sua observação sóbria e seca da realidade do nosso tempo levava-o, naturalmente, a uma visão pessimista. Ele assumia esse pessimismo, mas fazia uma ressalva que muito o honra: distinguia pessimismo de derrotismo. Defendendo a fecundidade do pessimismo, o filósofo escrevia: ''O pessimista constata que as coisas vão mal e fica profundamente perturbado com isso; o derrotista constata que as coisas vão mal e fica alegre com isso. O primeiro tem medo porque espera; o segundo não tem medo porque já perdeu toda a esperança e porque se desespera''.
O que Norberto Bobbio queria com suas reflexões era que nós não cedêssemos às falsas esperanças, aquelas capazes de nos enganar. Queria que nos voltássemos à implacável dureza da nossa situação e, não obstante, continuássemos a lutar. Enviuvara recentemente após 60 anos de casamento e nos últimos anos passara a desinteressar-se de problemas políticos conjunturais e ocupar-se cada vez mais de questões universais, como a viuvez, a violência, a morte, etc.
Enfim, embora não esteja mais entre nós, suas análises serão sempre referências obrigatórias para compreender as complexas relações que envolvem o político, o filosófico, o direito, o sociológico, áreas das Ciências Sociais que por ele foram colocadas a serviço da liberdade humana.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e professora universitária em Londrina


