Um dos equívocos da humanidade é crer que a cultura é um caminho de emancipação do homem. Ao contrário, quanto mais ele se intelectualiza mais tende a involuir em sua integralidade, porque abarrota o intelecto de informações e assim deixa atrofiar-se o seu potencial de luz e sabedoria. A intelectualidade, por si mesma, não produz um sábio, porque o intelecto é apenas um repositório de conhecimentos acerca da vida mundana e eventualmente de algo um pouco além.
A verdadeira educação haverá de passar pelo coração, não propriamente o órgão que pulsa, mas o centro vital, que conecta o ser com sua origem primeira, antecedente dos nascimentos físicos. Se o ensino não abarcar também o transcendente, não fará melhor o indivíduo. Ele será apenas mais um no conjunto da máquina humana, aparentemente feito para competir, para a busca cega de sobrepujar-se aos demais, enfim 'vencer na vida' e amealhar riqueza.
Nada contra adquirir bens necessários para uma existência confortável, luxuosa que seja, mas é preciso dar chance ao potencial sábio e divino que cada qual carrega em si e que, no geral, atravessa toda uma vida adormecido, sem utilização, porque o homem desde a infância foi ensinado a canalizar tudo para o intelecto e converter-se num acumulador de dados e referências. Tudo isto apenas pela causa de sobreviver.
As conquistas humanas, por si só, não melhoram o homem em sua estrutura vertical a que toca o solo mas, na extremidade superior, toca também a suprema fonte. A família e a escola não se ocupam da imagem supraterrena do homem mas apenas de sua relação com a mundanidade, com a astúcia de competir e 'enfrentar' a vida, e a igreja incutiu-lhe desde a infância a idéia de que é um pecador, e assim o fez medroso. Não lhe falou de sua divindade e de seu poder como centelha divina que é.
A educação deveria formar não intelectuais mas homens luminosos, que fizessem florescer a vida, sem prejuízo de ensinar-lhes as artes e os ofícios. O homem não vivencia a plenitude da vida, porque não foi ensinado a entendê-la e a glorificá-la. Ele apenas luta. Não consegue ser pleno e único em si mesmo. Guarda consigo, quase inerte, a essência que o faz superior à simples imagem tridimensional da fisicalidade. Porque inocularam-lhe a idéia de que tudo reside na caixa óssea que compõe o seu cérebro, morada do intelecto. Com toda certeza o ser é algo infinitamente maior e sem limite.
A cultura acerca das coisas do mundo pode conviver em harmonia com a sabedoria, porém se houvesse a necessidade de optar melhor seria uma humanidade inculta, sem tanta preocupação em abastecer o seu depósito de quinquilharias. Porque então sobrariam mais oportunidades de o homem liberar o rico manancial de inteligência transcendente represada dentro dele. Assim, ao invés de tanto lutar e competir, aprenderia a celebrar a vida e seria mais solidário, mais saudável, mais alegre e feliz.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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