Num exercício de futurologia, projeto financiado pelo governo americano, avalia que a situação econômica da América Latina não mudará até o ano 2020. Quem viver verá. Divulgado por alguns jornais de circulação nacional no início de janeiro, o estudo foi feito pelo Conselho Nacional de Inteligência e reúne especialistas de diversas áreas, que debatem sobre os cenários mais prováveis para quase todo o mundo.
É interessante perceber que órgão está subordinado diretamente à direção da conhecida Central de Inteligência Americana, a CIA. É possível pensar sobre a relevância de um estudo destes em termos de planejamento estratégico para a superpotência. A velha geopolítica que nasceu com os geógrafos ao final do século XIX, agora de forma mais sofisticada continua presente nas décadas iniciais do século XXI.
Alguns teóricos afirmam que a economia americana encontra-se no início de um longo declínio, ao mesmo tempo em que apontam para outras regiões emergentes do Planeta, como a União Européia, a Índia, o Japão e, principalmente, a China. O Brasil sequer é lembrado. Mesmo que o declínio se caracterize mais claramente, os Estados Unidos ainda terão muita gordura para queimar nas próximas décadas. A superpotência não deverá abrir mão tão facilmente de sua hegemonia mundial, daí a relevância de estudos como este e o impacto psicológico que acompanha sua divulgação.
Comparadas com outras áreas do planeta, a América Latina continua invisível e sem grandes preocupações no relatório. O cenário é de estagnação e se ela dará dois passos para frente em algum momento desta fase, acabará na sequência dando um passo e meio para trás. Entre as causas principais do imobilismo é apontado o fracasso em combater a pobreza. Além disso a distância entre ricos e pobres continuará atrapalhando o desenvolvimento e problemas como corrupção oficial, excesso de impostos, desrespeito aos direitos humanos e ineficiência policial continuarão na ordem do dia.
Como não poderia deixar de ser, o relatório indica como impacto positivo de desenvolvimento a criação da Alca - Área de Livre Comércio das Américas, que abrirá o mercado mundial sobretudo para os produtos agrícolas. E como já poderia se esperar, o relatório afirma que o Mercosul e a OEA - Organização dos Estados Americanos e outras organizações regionais pouco avançarão.
Na suspeita posição de quintal mais próximo, o relatório destaca que o México terá alcançado a condição de principal parceiro econômico americano e se distanciará da América Latina. Resta saber se todos os mexicanos também pensam assim. Numa amizade de longa data, desde a época da ditadura Pinochet, o Chile é colocado como um país que continuará seu crescimento econômico obtendo uma posição privilegiada na região. Já a Argentina ainda não terá se recuperado totalmente do colapso econômico, enquanto os países andinos continuarão sofrendo com narcotráfico e guerrilhas. Excetuando-se o México e o Chile, no cenário plantado pelo relatório, a América Latina ficará para trás por motivos já hoje conhecidos: receio dos investidores internacionais, alto grau de endividamento, desemprego e mão-de-obra pouco competitiva. Efetivamente uma profecia às avessas que pouco contribuirá para a melhoria da situação dos latino-americanos.
Não há por que confiar na CIA. O colunista Diogo Mainardi, que também abordou este assunto na revista Veja (21 de janeiro, p. 111), cita o senador Aloizio Mercadante ao lembrar que se a CIA soubesse prever o futuro, teria evitado os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 que aconteceram nos Estados Unidos.
TARCÍSIO VANDERLINDE é professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) no campus de Marechal Cândido Rondon

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