ESPAÇO ABERTO - Aos pobres, o rigor da lei
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sexta-feira, 20 de agosto de 2004
Cláudio Marques da Silva 
Na época da CPI do Narcotráfico escrevi um artigo intitulado ''A arte de investigar'', tendo em vista que a tão propalada comissão transformou-se em um verdadeiro palco, para não dizer picadeiro, tanto eram os palhaços em cena. Recentemente quando afirmei em outro artigo que rico não vai para a cadeia, chamaram-me de frequentador de botequim, e disseram que o erro está em nossas leis, que são pobres.
O ex-deputado federal Padre Roque Zimmermann afirmou que ''mostrou a sujeira que existia embaixo do tapete da polícia''. Ainda recordo uma frase dita por ele no encerramento dos trabalhos: ''Acabamos com o governo''. Desde então sempre duvidei das verdadeiras intenções deste aprendiz de investigador. Hoje vejo que tinha razão de minhas desconfianças. Agiram apenas politicamente. O mesmo deputado afirma que a ''CPI poderia ter avançado mais, apontando nomes de empresários e políticos ligados ao crime organizado'' e que ''a CPI também errou porque quando percebeu que pegaria gente muito grande, parou''.
Ora, estou ou não com a razão? Como é que rico vai ser preso se seus crimes sequer são investigados? Pois bem, já que ninguém teve a coragem de perguntar eu agora quero saber. Primeiro, a qual grupo pertencia ou pertencem os políticos e grandes empresários ligados ao tal crime organizado? Esta resposta posso deduzir. Segundo, por que interromperam as investigações? Seriam amigos íntimos? Doadores de campanhas? Parentes da família real? Terceira, o procurador que coordenou os trabalhos de investigação sabia destes fatos? Em caso positivo, quais providências foram adotadas? Com a palavra o nobre político.
A sujeira que supostamente existia embaixo do tapete da polícia foi exibida, mas à dos políticos e ricos empresários foi cuidadosamente ocultada pela CPI. Continuando no assunto, o ex-deputado afirma que sentiu vergonha ao encontrar um dos acusados na CPI em um aeroporto. Sou delegado de Polícia e no dia em que interromper uma investigação com medo de atingir pessoas ricas e poderosas tranquilamente pedirei a minha exoneração. Esta vergonha, jamais levarei para o túmulo. Caso assim proceda, não sentirei vergonha somente quando encontrar os acusados. Sentirei vergonha todos os dias de minha vida por ter sido omisso, fraco e acima de tudo covarde.
CLÁUDIO MARQUES DA SILVA é delegado de Polícia regional em Paranacity (PR)


