ESPAÇO ABERTO - Ao mestre, com respeito
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de outubro de 2003
Luiz Gonzaga de Melo 
Muito se fala no caos educacional do País. Se nos basearmos nos números apresentados, veremos que eles oscilam entre positivos ou negativos conforme a conveniência. Em determinados momentos apresentam-se números alarmantes do analfabetismo puro ou funcional. Em outros momentos, números positivos mostram a proximidade da ''erradicação'' do analfabetismo no País. Esta dança dos números merece um artigo especial. Hoje, porém, quero refletir sobre o propalado ensino deformado, falido e sem modelo, tese defendida por teóricos e educadores renomados.
É notória a ramificação da violência, sob todos os aspectos invadindo os educandários, e é natural e necessário que se busquem as causas e os culpados, a fim de que se reverta a situação e se propague a paz e a qualidade de ensino. O que não se pode admitir é a prática costumeira de acusar o professor como o grande negligente, consequentemente culpado pela situação. Muitos artigos em jornais e revistas apresentam, ainda que veladamente, tais acusações. Creio que isto aconteça porque a fundamentação é superficial. Caso contrário, ver-se-ia claramente que muito mais que culpado, o professor, como um ser humano comum, é vítima de um sistema que prioriza o ter sobre o ser e fomenta a concentração de renda.
Cabe aqui a análise de alguns pontos: a família, primeira e fundamental educadora, com sua estrutura abalada, distanciou-se de seu papel empurrando toda a responsabilidade para o professor; por todos os problemas familiares somados aos incentivos financeiros para garantir um maior número de alunos na escola, sem antes ter havido a preocupação de saber se a estrutura escolar tem condições de recebê-los, muitos alunos vão à força para a escola, pois preferem os prazeres ilusórios da rua, e para demovê-los dessa idéia seria necessário um atendimento especial e individual, tarefa difícil em salas superlotadas; a formação acadêmica do professor está longe de ser a ideal em muitas instituições, que deixam a desejar especialmente na formação de pensadores e pesquisadores; a necessidade de capacitação continuada para atualização, mais que nunca se faz necessária, porém o professor carece de recursos, tempo e opções para fazê-la.
Se o professor pega pouca aula, não sobrevive, se pega muita aula não dá conta de planejar e avaliar direito o seu trabalho; os embates entre governo e sindicato, provocam uma instabilidade emocional no professor, pois as grandes decisões, em termos de plano de carreira, cargos e vencimentos, sempre são adiadas; os seguimentos sociais cobram, mas não se comprometem com as ações escolares. E por aí, vão os fundamentos, que no meu ponto de vista, fazem do professor vítima e não culpado.
É claro que, como em todas as profissões, existem os bons e os maus profissionais. No magistério também, mas, mudando o sujeito e utilizando palavras do editorial da Folha de Londrina (4/10), digo que ''a situação do professor e a sua consequente inabilidade de reação são condições que não se buscam e ninguém as quer. Elas ocorrem e, como areia movediça, aprisionam quase que letargicamente suas presas, até porque fatores psicológicos podem provocar uma espécie de inanição mental''.
Há, em retórica, grandes intenções e projetos para a educação a longo prazo, mas se não fizer algo de impacto e concreto a curto prazo, esqueçam o longo prazo. Poder-se-ia começar por não culpar mais o professor, mas aceitá-lo como ser humano normal, respeitar, apoiar e dar-lhe condições de trabalho, investindo de fato na educação. Disso dependerá o futuro de paz e dignidade para a humanidade, construído através de uma educação de qualidade.
LUIZ GONZAGA DE MELO é professor e diretor do Colégio Estadual Antonio Martins de Mello em de Ibaiti


