ESPAÇO ABERTO - Animação bíblica da vida da Igreja
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Dom Orlando Brandes 
A CNBB lançou o Documento 97 cujo título é: ''Discípulos e servidores da Palavra de Deus na missão da Igreja''. Estamos diante de uma proposta bíblica corajosa que chamamos de ''Animação bíblica de toda a vida da Igreja e da pastoral''. Passamos da ''pastoral bíblica'' para uma animação bíblica de toda a Igreja. O que se pretende é colocar a Palavra no centro, respeitar sua primazia como alma do nosso ser e agir cristão.
A Palavra deve ser a inspiração, a seiva, o caminho, o alimento da vida sacramental e pastoral para evitarmos a sacramentalização e o devocionalismo. Para isso precisamos de três experiências com a Palavra, ou seja, formação bíblica, oração bíblica e anúncio da Palavra. É bom recordar a mensagem conclusiva do Sínodo da Palavra (2008) onde se diz que a Palavra tem uma ''voz'', isto é, a revelação divina, tem um ''rosto'' que é Jesus Cristo; tem uma ''casa'' que é a Igreja e tem um caminho que é a missão.
Grande ênfase é dada à ''leitura orante da Bíblia'' (Lectio Divina) por meio da qual acontece um encontro pessoal com Deus, um relacionamento por Jesus Cristo, seu Evangelho e seu reino. Outra oportunidade privilegiada de encontro com a Palavra de Deus é a homilia por ocasião das celebrações litúrgicas. Maior atenção deve ser dada à celebração da Palavra onde não há sacerdotes para celebrar a missa.
Para acontecer a animação bíblica de toda a vida da Igreja, o Documento faz algumas propostas novas, a saber: tornar a Bíblia o livro principal da catequese, realizar um ano bíblico, promover congressos bíblicos, criar comissões bíblicas em todos os setores da Igreja, oferecer subsídios bíblicos, rezar a ''Liturgias das Horas'' ou ao menos os salmos com o povo.
A animação bíblica de toda a vida da Igreja deve facilitar o acesso à Bíblia nas famílias, preparar os leitores (ministros da Palavra) realizar retiros bíblicos e ter escola bíblica nas paróquias, fomentar o profetismo e o ecumenismo. Semanas bíblicas, maratonas, dia da Palavra, simpósios, seminários bíblicos e outras criatividades especialmente na internet são bem-vindas, como também educar para o silêncio, a escuta e o amor à Palavra.
A dimensão bíblico-social é fundamental para o profetismo, a promoção dos direitos da pessoa, a reconciliação, a paz, a política. Especial atenção deve ser dada aos pobres, migrantes, doentes, defesa do meio ambiente. Os jovens, os encarcerados sejam atraídos a conhecer e viver a Palavra.
Os meios mais comuns para a animação bíblica são os círculos bíblicos, os grupos de reflexão, as Cebs, os meios de comunicação social, as missões populares. É preciso dar uma dimensão bíblica a todos os eventos celebrativos como: novenas, procissões, romarias, reza do rosário, via sacra, religiosidade popular, acólitos, infância missionária, movimentos eclesiais. Sem a Palavra a iniciação à vida cristã não acontece. Nos seminários seja oferecido além dos estudos bíblicos, a leitura orante da Palavra, para que nossos vocacionados adquiram um coração bíblico. Antes de ser mestra do anúncio, a Igreja deve ser ''mestra da escuta'' da Palavra de Deus.
Percebemos que a CNBB quer alavancar o amor à Palavra de Deus e dar-lhe a primazia que merece. Hoje é ainda muito atual a pergunta: ''Que fizeste com minha Palavra'' (Bernanos). Em nossos tempos falamos de iniciação cristã, nova evangelização, missão permanente, necessidade do profetismo e do ecumenismo. Para tudo isso acontecer há uma condição: o amor, o conhecimento e a vivência da Palavra de Deus.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
'Paralimpíadas' e los macaquitos
O que fazem com a ''última flor de Lácio, inculta e bela'' é constrangedor - mais constrangedor ainda é ver nossas autoridades mutilando nosso idioma para macaquear o idioma alheio. Durante as primeiras transmissões das ''Paraolimpíadas'' eu sentia algo estranho, como se estivesse ouvindo errado. Eles diziam: ''Paralimpíadas''. Eu pensava com meus botões: ''Mas que coisa é essa, estão cometendo um erro grosseiro''.
Mas não era exatamente um erro, era a necessidade premente que o brasileiro tem de imitar o que vem de fora, mesmo que para isso tenha que tripudiar sobre sua própria língua.
O Comitê ''Paralímpico'' Brasileiro resolveu adotar a forma lusitana ''paralímpico'', a qual, por sua vez foi copiada pelos portugueses da expressão inglesa ''paralympic''. Adotando esta aberração linguística, o nome do comitê português ficou ''Comité Paralímpico de Portugal'' (a acentuação aguda em comitê ocorre porque muitas palavras que aqui nós acentuamos com o grave (circunflexo), em Portugal a pronúncia é aberta, daí ''comité'').
Ora, se consultarmos qualquer dicionário do português falado no Brasil, veremos que o prefixo ''para'', de origem grega, tem diversas aplicações na nossa língua, com o sentido de ''junto'', ''contrário'', ''semelhante'', ''para além de'', ''proximidade'', ''distúrbio'', entre outros: paralexia (distúrbio de leitura), paradoxo (contrário à opinião comum), paradromo (local ao lado da pista de corridas -- Grécia Antiga); parafantasia (fantasia que transcende o objeto visado, permitindo representações pouco relacionadas com ele), parafilo (semelhante a uma folha), parafonia (defeito da voz que a torna desagradável), parageusia (distúrbio de paladar), paramastite (inflamação ao redor, próxima da mama), paramétrio (tecidos que envolvem o útero, próximos ao útero), paramilitar (semelhante a militar), parapsicologia (semelhante à psicologia ou além da psicologia), etc.
Em relação às ''Paraolimpíadas'', são assim chamadas porque são jogos semelhantes aos Jogos Olímpicos. Na construção de palavras compostas com o prefixo ''para'', nós podemos suprimir a vogal final do primeiro elemento, mas nunca a vogal que inicia o segundo elemento formador. Assim, se você escrever ''gastroenterologista'' ou ''gastrenterologista'', estará correto em ambas as formações. Portanto, deve-se escrever Paraolimpíadas, mas nunca ''Paralimpíadas'', porque estará suprimindo a vogal final do segundo elemento, o que é incorreto. Assim como em soci(o)econômico, hidr(o)elétrica, gastr(o)enterite, entre outras. Poderíamos, portanto, dizer: Paraolimpíadas ou ''Parolimpíadas'', mas nunca para ''Limpíadas''.
Portanto, utilizar largamente e em toda mídia um erro grosseiro desses, porque os portugueses copiaram dos ingleses, é no mínimo confessar publicamente a submissão ao ''novo'' que vem de fora, é escancarar nosso complexo de inferioridade como povo e como Nação, ou o desconhecimento da língua pelos diversos meios de comunicação.
Parte da mídia sequer tem coragem para dizer a nossa egrégia mandatária maior que não existe a forma feminina para o substantivo ''presidente'', no sentido de o que governa uma nação. Presidenta é admitida apenas no uso familiar, indicando aquela que governa ou preside um lar; a dona da casa. Em português você diz: o presidente fulano, a presidente fulana. E só. Chamar a presidente Dilma de ''presidenta'' só porque ela falou essa besteira no primeiro dia de governo, ou é falta de personalidade ou é puro puxa-saquismo.
Há tantas distorções e bizarrices no uso de nossa língua (e não é o caso de gíria) que daria um dicionário inteiro de besteiras. O mais grave é que estes erros, estas aberrações chegam ao cidadão pela mídia e, como o cidadão brasileiro acredita em primeiro lugar em Deus, e em segundo, na mídia, o estrago está garantido.
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e professor em Londrina


