Alquimia da alma
Há inúmeras lendas e romances contando histórias de alquimistas tentando transformar chumbo em ouro. Penso que isso não só é uma bela história como também é algo verdadeiro e possível. Não falo do aspecto físico e químico da coisa, mas ao significado simbólico dessas lendas.

Chumbo é um metal ordinário, não há nenhuma nobreza e elegância nele. É bruto, destinado ao trabalho pesado e não carrega nenhuma glória. Entretanto, sem ele muitas coisas seriam impossíveis de serem realizadas. Apesar de não o valorizarmos ele é parte do nosso dia e facilita muito nossas vidas. Já o ouro está como o mais precioso dos metais nas histórias, lendas e no mundo real. Coroas, anéis e colares são confeccionados para encantar e são, geralmente, feitos desse metal tão cobiçado. O ouro representa a pureza e as características mais almejadas.

Nas lendas, os antigos alquimistas sonhavam em conseguir transformar um metal tão reles e comum como o chumbo em algo tão mais belo e refinado como o ouro. E, simbolicamente, esse processo pode acontecer de fato. Quando em vez de pensarmos em metais pensarmos na nossa mente estaremos vislumbrando a oportunidade desse processo de transformação acontecer. Tal como a transformação dos metais nossas mentes também podem se transformar. É a alquimia da alma.

Carregamos em nossas mentes muitos sentimentos pesados e sem graça. Às vezes esses mesmos sentimentos nos afundam em vez de nos elevar. É duro ter que conviver com eles e se sentir desprovido de nobreza. No entanto, assim como o chumbo na vida real tem uma serventia, o chumbo metafórico também serve para entendermos que ele existe para ser transformado em algo melhor e mais refinado. É nosso trabalho transformar o que há de mais primitivo na mente em algo que seja muito mais belo. Visto através desse prisma somos todos alquimistas em nossas vidas.
SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicólogo clínico em Londrina



Reformulação de linha doutrinária
As crises, as catástrofes e as turbulências são eventos que, no mais dos casos, propiciam grandes reformas, e o momento crítico da Igreja Romana - não pela renúncia do papa mas pela revelação da existência de "peixes ruins na rede de Pedro" - pode redefinir a trajetória dessa instituição que reúne 1 bilhão e 300 milhões de fiéis. Pelo que se conhece dos cardeais, não se crê que saia agora, de seu meio, o grande reformador, mas não há dúvida de que alguns passos serão dados nesse sentido.
Os escândalos, sabotagens e disputas de poder são inerentes à infalibilidade humana, mas que se deponha os homens - no caso os "trituradores de pontífices" e da ordem eclesial - para que se salve a instituição. São os próximos que nos traem, nos enganam e nos roubam, porque os distantes não se molestam conosco e nem nós com eles. Importa que, com seus erros e acertos, a Igreja tem sido até aqui sustentadora da fé, e foi na difusão desse postulado que se notabilizou Bento 16.
Mais do que reestruturar sua política administrativa e reparar as infiltrações que fazem água na barca de Pedro, será a Igreja iniciar um processo de reformulação de sua linha doutrinária. É tempo de abrir-se para a evidência de verdades transcendentais que já não é mais possível encobrir. É tempo de afastar a doutrina de um céu de ociosas delícias - porque não há ociosidade no plano de Deus - e de um inferno de castigo eterno em fogo ardente, porque somos seres evolucionários, portanto em constante transmigração. É tempo de demonstrar aos fiéis que a misericórdia divina nos permite recomeços, em revivências sucessivas, neste e em outros planetas, porque há vida semelhante à nossa em toda a vastidão do cosmo.
A doutrina da salvação é outro tabu, porque a tradição nos diz que ela significa nos safarmos do "caldeirão do inferno", mas a verdade é nos livrarmos de cair no abismo da não existência, que é o apagar de nossa chama espiritual pela permanente incorporação do pecado. Esta é a segunda e definitiva morte mencionada no Apocalipse, no revelador livro de Melquisedeque e mesmo em recentes palavras de Jesus.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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