ESPAÇO ABERTO - Aids em debate
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de novembro de 2004
Paulo Wesley Faccio,Flávia Carvalhaes e Carolina Branco 
O dia 1º de dezembro é o dia mundial de luta contra a Aids, no qual todos nós poderíamos refletir sobre a importância do papel de cada um em relação à prevenção ao HIV/aids. A Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (ALIA) durante esta semana requisitou um espaço neste jornal para problematizar algumas questões que a Aids suscita em nossos tempos, tais como: problemas políticos (políticas públicas de saúde, programas de assistência e prevenção efetividade do SUS e seus preceitos), sociais (família, educação, religião) culturais (discriminação e preconceito) e individuais (desejos, expectativas, frustrações), apesar da separação aqui apresentada, essas questões se encontram imbricadas e, para tentar construir ações eficazes para o enfrentamento das mesmas é necessário um olhar mais amplo sobre os processos de saúde e doença.
A Aids irrompeu o cenário público no início da década de 80, a forma brutal como se manifestava, seu aspecto misterioso, incompreensível e inexplicável deixou perplexos tanto os médicos, cientistas e leigos. Inicialmente identificada como uma doença que acometia indivíduos do sexo masculino que tinham em comum a homossexualidade, e posteriormente constatou-se a doença em usuários de drogas injetáveis e hemofílicos, aumentando então os chamados grupos de risco. Os ''grupos de risco'' eram uma categoria explicativa da qual se apropriavam os discursos médicos, epidemiológicos, sociais e midiáticos para explicar os meios e modos de transmissão do HIV, acenando que esta era uma doença de determinados grupos, reforçando no imaginário coletivo, a noção de que a Aids era efeito necessário de condutas reprováveis do ponto de vista da moralidade preconizada pelo status quo.
Quando a epidemia começa a atingir outros sujeitos de comportamentos ''aceitáveis'' (mulheres e homens heterossexuais, crianças assim como a população em geral), cria-se outra categoria explicativa o chamado comportamento de risco. Deste modo, os indivíduos acometidos pela epidemia eram pessoas que praticavam ''comportamentos de risco'' (tais como sexo anal, uso compartilhado de agulhas e seringas, ou pessoas que tinham muitos parceiros). Verificou-se que esta justificativa era insuficiente para explicar as questões que a aids colocava para o mundo, além de ter um enfoque muito individual e culpabilizador do sujeito.
Foi recentemente (final dos anos 90) que outras formas de teorizar a epidemia começaram a responder melhor as demandas médicas, de prevenção e assistência à população. O conceito de vulnerabilidade avança significativamente em relação às estratégias então utilizadas (grupos de risco e comportamento de risco), na medida em que amplia a noção de risco, bem como trabalha com a inter-relação de aspectos individuais, sociais e políticos. Sendo assim, gostaríamos de agradecer a Folha de Londrina pelo espaço concedido durante a semana, no decorrer da mesma pretendemos debater alguns temas suscitados aqui e gostaríamos que os leitores pudessem contribuir com esta discussão.
PAULO WESLEY FACCIO, FLÁVIA CARVALHAES e CAROLINA BRANCO são membros da Comissão de Prevenção da Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (ALIA)


