ESPAÇO ABERTO - Agradecimento no lugar de palmas
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quarta-feira, 12 de maio de 2004
Walmor Macarini 
Estamos em tempo de festival de artes cênicas, logo vem o festival de música. Tempos em que a platéia assiste e bate palmas. Pois em verdade, pela palavra dos mestres, no lugar das palmas melhor seria um solene ''muito obrigado'', em voz alta ou em silêncio. Não com a estridência de mãos se batendo mas com as palmas voltadas para os artistas, enviando-lhes a energia do agradecimento. As palmas são uma manifestação ruidosa, prejudicial ao sublime momento de apresentação artística. Quebram a harmonia das correntes.
Natural que o sentido delas é manifestar que o espetáculo agradou, porém no mais dos casos não reside aí nenhum sentimento de gratidão e apenas o aplauso. O artista sentiria muito mais a vibração emanada de mãos erguidas, voltadas para ele, com a mente em estado de dar graças. Não custa experimentar, nestas semanas londrinenses de tanto espetáculo. Isto se pratica nos planos mais elevados, onde também existem apresentações de arte, certamente que mais sutis. Dança, música, encenações, cores, excedem nessas esferas tudo o que se imagina de superlativo.
Nas celebrações religiosas do rito católico, aqui entre nós, costuma-se colocar os braços para a frente, com a concha das mãos em forma de apoio e da junção de correntes positivas, e este é um vigoroso exercício de projeção de energia, por via das nossas extremidades físicas. Esse ritual é um remascente guardado na memória remota que os místicos sempre mantiveram e que agora se redesperta. A Igreja Católica acentue-se é marcadamente ritualística desde suas origens, embora tal fosse mais consciente nos primórdios. O ato do celebrante de erguer o cálice é um momento em que os céus se abrem e recebem o conteúdo dessa taça, que são os pedidos dos fiéis.
Uma apresentação artística é também uma celebração. Palmas são uma quebra de consonância se o espetáculo é de sublime conteúdo e forma. Cabem palmas e até espocar de fogos, se for do gosto nesses shows densos em som, imagem e textura, porque eles já romperam com a harmonia vibratória. Algo que afeta nocivamente as pessoas e lhes embrutece a sensibilidade. Se o espetáculo é belo e suave, o bom é dispensar as palmas e no lugar delas as mãos estendidas em agradecimento. Essa intensa emanação de energia, que flui das mãos e do sentimento, faz um grande bem aos artistas.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


