A vitória obtida por Alexandre Kireeff nas últimas eleições para prefeito de Londrina é, de fato, a expressão daquilo que se convencionou chamar de ''necessidade da mudança'', de ''governo de ruptura'' e de ''busca de um novo modelo'' de governança. Há, inclusive, plausibilidade nesta proposta ao considerarmos o trágico histórico das gestões de Antonio Belinati e Barbosa Neto. Ambos asseveraram, em dois momentos e contextos distintos, a mesma identidade política, assentada num personalismo de linhagem carismática e neopopulista que permitiu a correlação supostamente acertada entre duas instâncias socialmente distintas: o povo e o poder público.
O grande nó deste binômio está exatamente no fato de que o ''povo'' historicamente sempre foi objeto de disputa, não apenas no espaço das lutas políticas desde os tempos da Primeira República, mas também no universo das representações das classes sociais no Brasil. Noutras palavras, a ''busca do povo brasileiro'' - intensamente tematizada por inúmeros teóricos das ciências sociais - nem sempre significou a inclusão dos setores populares nos âmbitos da gestão e da administração pública. A rigor, a sua participação efetiva no ''poder'' - outro conceito extremamente complexo - seria inviabilizada pela forma como o próprio povo se compõe na sua base organizacional. Ele, o ''povo'', é comumente concebido como unidade orgânica, tal como a Igreja interpreta, por exemplo, a família. Contudo, as duas categorias conseguem senão revelar a grande complexidade em que são fundadas: os interesses do povo são muitos, diversos, contraditórios e, muitas vezes, inconciliáveis.
Foi neste equívoco que incorreu o artigo ''Sua excelência, o povo'' (Espaço Aberto, 4/11), de autoria de Flávio Montenegro Balan, presidente da Associação Comercial de Industrial de Londrina (Acil), que descreveu a vitória de Kireeff como sinônimo de conquista popular. Ora, ao afirmar que ''foi vitorioso o candidato que tratou o povo como verdadeiro protagonista e (...) ao fazer uma aliança com o povo fez de Kireeff vencedor'', Balan oblitera uma discussão mais complexa balizada, ao menos, por duas questões centrais: 1) a chamada ''nova classe média'' atualmente tem alcançado maior visibilidade, sobretudo devido à ascensão econômica de classes que há dez anos eram definidas como C, D e E. Com elas também ascendeu a vontade de mudança refletida na nova organização das classes sociais no Brasil. Mas esta visibilidade, mais que política, é contingenciada pelo perfil do novo consumidor, desenhado hoje nos espaços do consumo; e 2) se existe algum ''povo'' que aderiu ao apelo da mudança de Kireeff, este povo é próprio cidadão-consumidor que se reconheceu no discurso técnico-administrativo e empreendedor de Kireeff. Este eleitor quer um prefeito tal qual um gerente de uma loja de departamentos: oferece os melhores produtos, os melhores descontos e que possa cobrir a oferta da concorrência. Tal como qualquer outro candidato das eleições municipais, Kireeff também tomou o povo para si, instrumentalizado-o em prol de sua candidatura.
Mas quero reiterar que isso não constitui um problema político-partidário, até porque o partido do prefeito eleito (PSD), dissidente do Democratas (DEM), possui relações históricas com os antigos Partido da Frente Liberal (PFL) e Partido Liberal (PL) - partidos ligados às velhas oligarquias e às elites empresariais conservadoras no Brasil. O que merece ser analisado é o modelo de estrutura que hoje se apresenta como ruptura de gestão, rompendo com velhos paradigmas políticos. Este, via de regra, sempre foi o argumento central de elites políticas que, em vários momentos da história política do Brasil, não mediram esforços em laurear o desenvolvimento em concomitância com o crescimento do seu poder de capital. Em síntese, mais que em qualquer outro momento, presenciamos a privatização do espaço público. Neste sentido, este modelo de política (gestão?) não traz à tona novos atores sociais, mas imprime no ''povo'' a responsabilidade que nunca lhe concederão: a autonomia.

RODRIGO CZAJKA é sociólogo em Londrina e professor do departamento de Sociologia e Antropologia da Unesp em Marília (SP)

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