Leio, n’algum sítio, que a iniciativa privada (Allegra) detentora da concessão do estádio do Pacaembu (Paulo Machado de Carvalho) por 35 anos (desde 25 de janeiro de 2020), irá derrubar o Tobogã e, em seu lugar, construir alguma outra coisa...

O Tobogã, para quem nunca esteve no até anteontem templo maior da propriedade municipal paulistana, já veio modificando a arquitetura original (que remete aos anos quarenta, no século passado, por óbvio) do Pacaembu, suposto que o projeto inicial previa e edificava uma concha acústica, demolida em setembro de 1969, na gestão Paulo Maluf e era uma arquibancada vertical...

Não percebo quase nada de estilo arquitetônico, longe disso, mas a verticalidade do Tobogã sempre me remeteu ao mítico estádio do Bocca, La Bombonera, naquilo que a torcida parecia invadir o campo estando acima e em uma situação de maior verticalidade.

A distância das construções para o campo, todavia, fazia a diferença – em La Bombonera o campo parecia que iria ser devorado pela arquibancada, no Pacaembu não se tinha essa impressão, ainda que houvesse verticalidade na arrumação...

A história do Pacaembu sempre será parte indelével da minha própria história, naquilo que foi no Paulo Machado de Carvalho que vi o meu Corinthians, inúmeras vezes, dar extraordinários espetáculos, sempre para muita gente.

Não sei se vocês sabem, mas sou muito Corinthiano...

Todavia, ainda que seja muito dolorido, não será do Timão que falarei aqui e agora – e sim do tempo que modifica as coisas e da vida que segue esquecendo das gentes...

O ano da graça era 75 ou 76 (não recordo bem) e o Corinthians vinha da desalegria de não vencer um campeonato desde o inesquecível título do quarto centenário de São Paulo (1954), onde desfilou com sua extraordinária linha ofensiva que alinhava Cláudio (o gerente), Luizinho (o pequeno Polegar), Baltazar (cabecinha de ouro), Carbone (o próprio) e Mário (o Mário...), que meu pai me ensinou amar, sem que eu tenha conhecido...

Noves fora minha paixão alvinegra (como se isso fosse possível...), no ano em questão (75 ou 76), meu amado tio Waldomiro, extraordinário palestrino, me levou ao Pacaembu pela primeira vez, para ver jogar os de verde. Foi aí que vi Ademir...

Não escondo que o talento extraordinário do Divino sempre me fez olhar para os de verde com algum respeito. Devo ao Divino e a meu amado tio o entendimento de que a vida acomoda as diferenças, ainda que misture homens e porcos...

Fiquei até 78 ou 79 sem tornar ao Pacaembu e essa distância pronunciou a urgência de um batismo cristão que me afastasse do pecado original, matriculado na vez única em que lá estive.

Em meu retorno triunfal desfrutei o Corinthians aplicar um sonoro quatro a zero, em um jogo do campeonato brasileiro (que começou em 1971 e não antes!), contra o bom time do Dom Bosco (esqueci de onde, talvez do Maranhão).

Foi aí que percebi o Tobogã...

Não havia lugar no estádio lotado e o cambista que me vendeu o ingresso vaticinou, com a sabença dos que, com os pés descalços, contam a história das chuteiras imortais: ‘É o melhor lugar do mundo’...

De fato, o tobogã foi, ao longo de minha vida, um pedaço do paraíso onde se juntavam pobres e ricos, brancos e negros, amarelos e vermelhos, albinos e não albinos, feministas e machistas, comunistas e imbecis, homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais, nordestinos e sulistas, nortistas e de centro oeste, anões e gigantes, gordos e magros, gente com dente, gente sem dente... Todos irmanados por uma só paixão: o Corinthians.

Foi no Tobogã que a alegria se fez maior e a dor de ser se dissolveu em uma efeméride eclipsada pelo arrebol alvinegro. Foi lá, ainda, que beijei uma linda menina (em verdade ela me beijou) pela felicidade mágica de um gol no fim do jogo. Nunca mais a vi. Não lhe sei o nome, nem nada que me dê uma pista de sua existência. Dela sei que sabe beijar e que ama, apaixonadamente e sem pudor, o meu/dela/nosso Corinthians...

Foi no Tobogã minha mais sentida lágrima e, também, minha mais pronunciada felicidade.

Quanta saudade a bola guarda quando você alinha em qualquer campo Corinthians! Essa mágica foi no Tobogã que vivi. E agradeço aos deuses da bola a frieza do concreto alimentado na garoa secular dos bandeirantes a embalar meu sonho de, um dia, vestir o manto e jogar para aquela gente...

Não tive essa sorte. Mas não deixei de viver meu grande amor alvinegro nas arquibancadas do Pacaembu, mais especificamente no mítico Tobogã...

Obrigado a quem, ao longo do tempo, me ensinou que amar jamais será um verbo (transitivo ou intransitivo) e sim uma circunstância que vai além do jogo – porque nunca foi apenas um jogo...

Para mim foi a própria vida, rediviva em muitos abraços trocados com desconhecidos enquanto a deusa branca dormia na rede do adversário.

Saudoso de um tempo que vai escorrendo por minha história, sigo grato aos dias de Tobogã, onde o frio do concreto e o desconforto da garoa paulistana eram, sim, o melhor lugar do mundo – afinal, jogava o Corinthians.

Tristes trópicos onde a iniciativa privada cospe na história como quem não lava a mão após fazer uso do banheiro...

Saudade Pai – Vai Corinthians...

João dos Santos Gomes Filho, advogado

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