George W. Bush foi reeleito presidente dos Estados Unidos, a maior potência comercial, financeira e militar do mundo, no último dia 3. Mas quais teriam sido as razões de sua vitória, quando tudo apontava na direção oposta, afinal, ele reduziu os impostos dos ricos e com isso contribuiu para o aumento do déficit fiscal; foi incapaz de evitar o aumento do desemprego e manter o ritmo de expansão da economia como fizera seu antecessor, Bill Clinton; invadiu o Iraque sem o respaldo das Nações Unidas sob o pretexto de que lá havia armas nucleares, químicas e biológicas - que nunca foram encontradas. Ou seja, poucos não foram os equívocos capitaneados pelo líder da superpotência tanto interna, quanto externamente.
O mandato de George W. Bush, marcado pela mediocridade antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, passou a se caracterizar, a partir de então, pelo militarismo e unilateralismo. Diante de tudo isso, não se pode deixar de indagar por que os eleitores norte-americanos não deram ouvidos ao que ecoava no resto do mundo: que o unilateralismo e a violência só reforçam o sentimento de antiamericanismo que se alastra irremediavelmente, inclusive entre a população de países historicamente alinhados com Washington.
A vitória de Bush, entretanto, não foi nenhuma surpresa. Enquanto o candidato republicano era tido como o presidente da guerra, que não teve medo de lutar para defender os americanos, o democrata John Kerry transmitiu a idéia de político vacilante, uma vez que na condição de senador aprovou o envio de tropas ao Iraque e, enquanto candidato à presidência, mudou de lado para ''oportunisticamente'' conquistar os votos dos descontentes. Ademais, a identificação do povo norte-americano com os valores tradicionalistas defendidos por George W. Bush é outro aspecto que precisa ser ressaltado.
Sem dúvida, o conservadorismo avançará nos Estados Unidos nos próximos quatro anos, pois os americanos reelegeram aquele que defende os valores familiares, frequenta a igreja, é contra o aborto e condena o casamento homossexual, assuntos bastante debatidos durante a campanha. Enquanto nas cidades onde ocorreram os atentados terroristas (Nova York e Washington) a vitória dos democratas foi significativa, numa declaração inequívoca de rejeição à política da Casa Branca, o resto do país preferiu continuar com o que já tinha em mãos, ao invés de arriscar com algo novo e desconhecido.
O conservadorismo político e social registra uma vitória histórica, numa demonstração clara de que o ''homo medius'' norte-americano, apesar de sua incontestável opulência financeira, ainda não se libertou das amarras puritanas, típicas do período colonial.

ROBERTO DI SENA JÚNIOR é coordenador do Curso de Relações Internacionais do Campus da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) em São José (SC)

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