Qualquer crime, por si só, gera comoção, tristeza, dor e sofrimento. Não apenas aos familiares e amigos das vítimas, mas à sociedade como um todo. No Brasil, assistimos diariamente a dezenas de casos de barbárie explícita. Vivemos o cotidiano de uma guerra civil das mais violentas, porém fazemos de conta que nada acontece. Há casos onde a crueldade dos fatos é tamanha que ultrapassa a bestiliadade, a insanidade humana e nos vemos diante da mais completa impotência.
As razões podem ser explicadas sobre diversos ângulos, mas nenhum denominador comum sustenta qualquer tese capaz de justificar a violência pela violência. Este sentimento de repulsa se agrava ainda mais quando vemos crianças, jovens ou adolescentes terem suas vidas, seus sonhos interrompidos ao serem brutalmente assassinados, como o que acaba de ocorrer em São Paulo onde um casal de namorados é a mais recente vítima.
Nas grandes cidades, nenhum cidadão pode ter a certeza que ao final do dia retornará para casa são e salvo. Da mesma forma que os finais de semana se tornaram para os pais um dilema cruel. Basta atentar às estatísticas que me medem os índices de mortes no trânsito ou mesmo assassinatos. Os jovens, por imaturidade ou vítimas do sistema, são alvos expostos em cada esquina.
Não resta a menor dúvida que o Estado, por sua ineficiência quase que absoluta, tem uma enorme parcela de responsabilidade. Quer seja pelas disparidades econômicas e sociais, pela ausência de uma política de segurança ou até mesmo pela omissão no âmbito educacional. No entanto, a falta de maturidade, que em alguns casos beira à irresponsabilidade, de quase toda uma geração tem servido cada vez mais para engrossar o rol das fatalidades.
No caso paulistano, além do local escolhido para acamparem ser perigoso, prevaleceu a omissão, a mentira, como forma de desafio de quem precisa ainda se auto-afirmar. O desabafo do advogado Ari Friedenbach, pai da jovem, foi um apelo aos filhos para que ''ouçam mais e não olhem para gente como quem não sabe o que fala''. Noutro cemitério, Reinaldo Caffé, ao sepultar o filho, alertava que os ''jovens devem conversar e ouvir mais seus pais''.
Sem dúvida que o diálogo entre pais e filhos é fundamental, no entanto, vivemos um período onde os jovens não conhecem limites para suas ações. Muitas vezes anestesiados pelas fantasias da vida, movidos pelas utopias da mídia e tragados por um consumismo exacerbado, esta geração shopping-center na sua maioria parece não discernir o sonho da realidade.
A psicóloga Rosely Sayão, num recente artigo publicado na Folha de S. Paulo - ''Educar é alertar sobre risco'', foi enfática ao afirmar que a educação infantil, em seu modelo de superproteção e satisfação ilimitada de seus desejos, faz com que as crianças, além da falta de parâmetros e regras ''não aprendam a se defender dos riscos''. Por outro lado, na adversidade certamente aprenderiam que só a solidariedade é capaz de faze-las superar os obstáculos.
O ensinamento não serve apenas às crianças, mas a jovens, adultos e velhos. O lamentável é que muitas vezes se torna necessário chegar a um estágio tão cruel para aprendermos que viver pode ser uma tarefa bem mais simples que aparenta.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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