ESPAÇO ABERTO - A UEL e as denominações religiosas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Marco Antonio Neves Soares 
É sabido que a universidade é filha da Igreja, mas para que pudesse construir o pensamento ocidental e a modernidade, distanciou-se dos cânones e dos dogmas e passou a construir uma forma inacabada de conhecimento, marcado pela dúvida e pelo livre trânsito de ideias. Apesar de percalços aqui e ali durante sua história, seu espaço é caracterizado pela tolerância, o que implica em aceitar a diferença e a diversidade de pensamento e de atitudes.
Diferentemente, as religiões e as formações religiosas, com seus credos, seus dogmas, seus ritos, suas verdades, impõem uma única maneira de ser, e não raramente, enfiam-se em embates para atrair ou manter seus seguidores. Nelas não há espaço para as dúvidas, pelo seu caráter herético e anti-hierárquico, já para a universidade elas são os seus motores, aquilo que faz o químico, o matemático, o filósofo, o historiador, o pesquisador em geral terem uma gênese comum: a inquietude.
Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), as fronteiras entre os credos e os conhecimentos sempre foram muito tênues, em alguns setores eram até mesmo muito confusos. A capela, que tem sentido de memória e de patrimônio, era utilizada para missas e batizados, surgiram projetos de extensão francamente proselitistas e assistencialistas, a sala dos conselhos passou a ser decorada com símbolos cristãos, salas de aulas utilizadas para encontros de grupos religiosos de diversas colorações, a sessão de formatura com atividade pretensamente ecumênica, mas restrita a padres e pastores, na biblioteca, painéis divulgando encontros religiosos ao invés de indicarem livros e leituras.
O que se reivindica, por isso foram instados os poderes públicos, é um tratamento respeitoso às pessoas em sua individualidade, o que inclui a sua religiosidade, garantido um espaço laico, para que ela não seja alvo de proselitismos, que atentassem contra a sua liberdade de pensamento e de expressão. Parece que esse foi o entendimento da Procuradoria Geral da União, garantir os espaços da laicidade e do conhecimento sem a ingerência de qualquer credo que permeie as atividades acadêmicas ou que faça uso de seus espaços. A PGU não cerceou os exercícios da fé, apenas reconheceu que ela tem seus locais garantidos, que por sua vez não estão na universidade.
A UEL, assim como a região Norte do Paraná é multiétnica e multirreligiosa, neste sentido, em respeito aos direitos individuais, a separação das atividades acadêmicas das atividades proselitistas devem ser claras, pois a nossa comunidade é composta por cristãos, budistas, muçulmanos, judeus, baha'is, seguidores dos cultos afrodescendentes, espíritas, daimistas, rastafáris e ateus, que podem ser ofendidos pelo princípio segundo a qual ''minha religião é melhor que a sua''.
A interdição dos serviços religiosos é um avanço democrático, pois força a universidade a ver-se como multirreligiosa, e reconhecer e defender a diversidade de visão de mundo, uma vez que não proíbe, coíbe ou desestimula a participação dos fiéis, seja ele quem for, em sua denominação religiosa, seja ela também qual for; e também a inquirir e compreender as manifestações religiosas como um fenômeno objetivo, passível de ser investigado cientificamente.
Talvez seja o momento da UEL retirar da sala dos conselhos os símbolos religiosos que lá estão, pois seria legítimo que os seus integrantes não cristãos também ali depositassem seus sinais, caso contrário estaria sendo privilegiada apenas uma confissão. Por isso, a importância das ações dos poderes públicos em acompanhar mais proximamente o que diferentes religiões promovem na UEL, para que o espaço público não seja privatizado por religiões que ainda se julgam oficiais. Por ser foro privado, a crença deve ser exercida em seus espaços destinados, com CNPJ próprio, algo bem simples e que pode ser compreendida pela simplória forma ''cada um no seu quadrado''.
MARCO ANTONIO NEVES SOARES é docente do departamento da História da Universidade Estadual de Londrina


