ESPAÇO ABERTO - A triste realidade de um sistema educacional
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de outubro de 2003
Abraham Shapiro 
Abro um livro de pedagogia moderna e tenho conhecimento de um dado que me assusta. Até os quatro anos de idade uma criança ouve quatrocentas mil vezes a palavra não. Pensando nas consequências disso, imagino que o estressante e incômodo medo de errar que acomete 99% da população advenha disso.
Se este número de ''nãos'' fosse reduzido à metade, haveria em todos uma percepção muito mais aguçada da possibilidade de transformar coisas impossíveis em concretas. Seríamos pessoas mais ''antenadas'' em aproveitar as infinitas oportunidades que surgem em todos os campos da vida, a todo momento. Isto significaria mais identidade com a nossa natureza e potencial.
Receber uma informação não é aprender. Enganamo-nos achando que conhecendo coisas novas estamos aprendendo. Vamos à escola, fazemos um curso superior e depois um doutorado. Pensamos que isto seja aprender algo. Informar em poucos minutos sobre coisas que levaram anos, décadas ou séculos para serem descobertas é, na realidade, a melhor forma de não despertar o indivíduo para o gigantesco poder criativo que possui dentro de si.
Conhecer não é aprender. Nossas escolas estão colaborando para que nunca descubramos nada por nós próprios. Gastamos todo o tempo estudando coisas que outros descobriram ou fizeram bem.
Um curioso método de ensino é aquele empregado pela Nasa na formação de seus astronautas. Eles são capacitados para enfrentar o inesperado e a conviver com o desconhecido. Dez por cento do tempo gasto no preparo de um astronauta são dedicados à operação da nave espacial desde a partida até o seu retorno. Os outros 90% do tempo de treinamento são gastos em vivência de situações imprevisíveis do vôo. Tudo é feito dentro de uma nave de simulação, cópia exata da real e submetida a condições similares.
Os orientadores ficam em uma central de comando imaginando e propondo situações inesperadas aos alunos ...''e se acontecer isso, o que deve ser feito?'' À medida que a habilidade se desenvolve, começam, então, as propostas críticas. De repente, desligam um instrumento qualquer para que os estudantes resolvam o problema da forma que for possível, utilizando os meios que estiverem à mão dentro do simulador do módulo espacial. Vale tudo. A vida está em jogo. É uma forma supercriativa de ''aprender a aprender'' para enfrentar o inesperado.
A educação tal como concebida e praticada na maioria dos países já está há muito superada. Só desenvolve a mente lógica que é só 10% do total da mente humana. Não se dedica à mente inconsciente, os outros 90%. Por isso, a maioria das pessoas não está preparada para aproveitar oportunidades. Acabam perdendo-as sem sequer notarem sua existência ou muitas vezes sem saber o que fazer com elas.
Talvez devêssemos nos preocupar em preparar pessoas para serem criativas e a inovarem ao invés de, apenas, saberem encontrar informações. Se hoje, quando o volume de informações dobra a cada três anos vivemos a síndrome do saber inútil, o que será do mundo quando, por volta do ano 2010, esta nuvem de dados dobrar a cada oitenta dias?
ABRAHAM SHAPIRO é empresário na área de treinamento e desenvolvimento de pessoas em Londrina


