ESPAÇO ABERTO - A transposição do rio São Francisco
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terça-feira, 01 de fevereiro de 2005
Adriano Moreira Trindade 
Historicamente, a região semi-árida do Nordeste setentrional tem sofrido de forma contínua os efeitos de frequentes e prolongadas estiagens com sérias consequências para parte da população. As causas são demasiadamente conhecidas, mas ainda não enfrentadas de forma estruturada e eficaz. É sabido que a escassez da disponibilidade hídrica aliada ao limitado desenvolvimento econômico e social faz com que aproximadamente 10 milhões de pessoas sobrevivam sem condições dignas.
Ademais, o Polígono das Secas, confere o status de refugiados a milhões de nordestinos que em busca de melhores condições de vida migram rumo ao litoral ou outras regiões como o Sudeste e Sul. Todavia, muitos governantes já fracassaram na missão em levar água ao sertão nordestino. Partindo-se dessa premissa, o governo federal está determinado em realizar uma grande obra de infra-estrutura com investimentos de aproximadamente R$ 4,5 bilhões e início neste ano.
Em síntese, o empreendimento constitui-se na criação de dois pontos de captação - Eixo Norte e Eixo Leste. O primeiro eixo terá uma extensão de 402 km, com início em Cabrobo (PE), onde partirão canais de distribuição hídrica para as bacias dos rios Jaguaribe (CE), Apodi (RN). Enquanto o Eixo Leste compreenderá aproximadamente 220 km, iniciando em Itaparica (PE), visando abastecer as bacias dos rios Paraíba (PB) e Moxoto (PE).
Os estados favorecidos com este empreendimento são Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, podendo beneficiar uma população de quase 10 milhões de habitantes. Diante desse prognóstico, torna-se oportuno fazer algumas considerações sobre a transposição.
A bacia do rio São Francisco encontra-se genericamente impactada e deveria ser recuperada de uma forma progressiva e sistemática. Faz-se mister conter a devastação florestal instigada tanto pela agricultura itinerante como pela produção de carvão vegetal que tem gerado significativos impactos às nascentes. Igualmente é imprescindível recompor as matas ciliares, o controle do desbarrancamento das encostas, o desassoreamento e a perenização dos afluentes do semi-árido.
Após a recuperação do ''Velho Chico'' poder-se-ia com muita acuidade analisar a possibilidade de transposição, eis que precisa de um melhor estudo da relação caudal versus a vazão, pois o rio São Francisco é responsável por 95% da energia elétrica do Nordeste. Somente será possível ter um modelo autêntico de desenvolvimento e integração social no Nordeste quando forem extirpados o clientelismo, a monopolização do uso dos açudes e houver a democratização e isonomia do acesso à água.
ADRIANO MOREIRA TRINDADE é geógrafo especialista em análise ambiental pela Universidade Estadual de Londrina e membro da Associação de Geógrafos Brasileiros


