ESPAÇO ABERTO - A tragédia de Liana
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de novembro de 2003
Abraham Shapiro 
Um triste fim. Tragédia que talvez nunca seja definitivamente explicada. O ser humano se supera com facilidade quando a questão é o baixo nível a que pode chegar. Um amigo escreveu-me que no momento em que um ser humano tira a vida de uma garota indefesa e inocente de 16 anos - apavorada pelos mais indigitados abusos - é possível entender o que Deus sentia quando inundou o mundo nos dias de Noé. Vergonha e nojo de sua criação.
Jovens em um enterro. Das mais de trezentas pessoas que estavam naquele cemitério israelita, pelo menos duzentas eram jovens. Um pedaço de cada um de nós morre em uma situação dessas. Um caixão pequeno levava o corpo Liana Friedenbach para a sepultura. O corpo, tirado direto da câmara fria, é enterrado após uma curta prece do rabino.
Mil imagens vêm à mente. Imagens de como tudo aconteceu, do medo que ela deve ter sentido, da dor. Somos invadidos por uma frustração e a sensação de impotência. Acabou! Parece que nada poderá ser feito. E a família? E aquele pai que ficou como o símbolo da esperança de encontrá-la?
O que mais incomoda é que hoje mesmo esta tragédia estará esquecida. Agora ela é vivida somente pelos familiares. A lição que toda a sociedade deveria tirar será deixada de lado. Não estou me referindo à culpa. Muita gente aproveita episódios como este para atribuir culpa a alguém. A culpa é um elemento indissociado da dor. Seria ótimo se a questão da culpa ficasse restrita aos criminosos que cometeram a atrocidade e que os pais e familiares da Liana pudessem encontrar, algum dia, a paz e o perdão - perdão deles mesmos para si próprios.
Para a sociedade este é um novo alerta. Um aviso de que é preciso agir. O tempo está passando. Nós estamos entorpecidos, dormindo enquanto a história vai levando para a terra quem deveria escrevê-la com maior dignidade do que temos sido capazes. O despertador toca, de novo, e todos continuamos dormindo. Londrina, continua a mesma. Torna-se dia após dia uma das cidades mais violentas do país, das Américas. Vejam como estamos impotentes. A violência é, hoje, um dado que nos faz competir com as capitais brasileiras. Nosso brilho dá lugar às trevas.
Como é patético tudo isso. Difícil de acreditar. A mesma sociedade que mostrou-se capaz de mover-se com entusiasmo histórico e espírito de guerra contra a corrupção de um governante, adormece, agora, de ressaca pelas festas e premiações daquela conquista enquanto outro inimigo a invade e assalta sua vida sem que nada seja feito. Onde estarão os bravos? Os heróis? Esperam pelas eleições do ano que vem?
Se fomos capazes de nos mobilizar em favor do dinheiro público, o quê nos engessa, agora, de lutar em defesa de nossas próprias vidas? Vejam todos: há gente inocente sendo lançada à morte quando voltam para suas casas, depois do trabalho.
O tal ''crime organizado'' ganha força entre nós e já é algo visto com temor e grandeza. Torna-se pouco a pouco uma instituição de respeito e, por isso, intocável. Políticos já são patrocinados por ela. Juízes a ela se aliam. Temos mente para pensar? Olhos para ver? Coração para sentir? Por onde andarão as sociedades - secretas, religiosas, profissionais, educacionais, filantrópicas, anti-isso, anti-aquilo - as ONG's, associações, agremiações e tudo o que temos direito?
Levanta, Londrina. Já é tarde. Quando todos acordarmos deste triste pesadelo que insistimos permanecer sonhando, entenderemos, então, que foi um enorme absurdo e incoerência rir e menear a cabeça da incapacidade de paz do Oriente Médio - como se fôssemos experts em assuntos de paz - quando aqui, na esquina de nossas ruas, morriam crianças e jovens que queriam, apenas, brincar ou sair para passear. Neste dia, talvez nada mais poderá ser feito.
ABRAHAM SHAPIRO é profissional da área de Treinamento e Desenvolvimento de Recursos Humanos em Londrina


