ESPAÇO ABERTO - A sucessão em Curitiba
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de junho de 2004
René Ruschel 
O jornal Valor Econômico, na edição do dia 14 de maio último, trouxe uma análise sobre o contexto eleitoral do Partido dos Trabalhadores nas principais capitais do país com vistas às próximas eleições municipais. Na página anterior da mesma edição, o diário paulistano publicou uma entrevista com o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, onde ele analisa como o brasileiro deverá votar.
A eleição em Curitiba é tida como uma ''disputa fácil'' com a justificativa que ''Ângelo Vanhoni lidera as pesquisas, tem o apoio do governador Roberto Requião e de aliados tradicionais''. Apesar de estar alguns pontos à frente - a última pesquisa DataFolha dava uma vantagem de 28% contra 24% do tucano Beto Richa - o quadro político parece não ser tão ''céu de brigadeiro'' como afirma a reportagem. Se mantido o quadro de candidaturas dos principais partidos o bom-senso indica que, hoje, haveria segundo turno e a disputa seria entre Vanhoni e Richa. Mas muita água ainda vai correr por baixo da ponte. De acordo com a mesma pesquisa o deputado Mauro Moraes, do PL, tem 11% na preferência e o ex-deputado Rubens Bueno, candidato pelo PPS, 5%. Vale lembrar que na última eleição para governador, nas 72 horas subsequentes ao último debate na televisão Bueno cresceu, na capital, de míseros 2 pontos para 14,4%. A rigor, este foi um dos fatores que o incentivou a sair candidato.
Num exercício analítico, duas variáveis devem ser consideradas. A primeira é que os resultados das eleições podem estar mais condicionados aos desempenhos de Moraes e Bueno, uma vez que tanto Vanhoni como Richa devem crescer relativamente pouco. Ou seja: por já estarem expostos à mídia os candidatos do PT e PSDB começam com uma amostragem de votos alta. A incógnita é: no caso de crescimento dos adversários quem perderia mais votos? Mauro Moraes tem seu público na periferia. Trata-se do eleitor volátil, sem ideologia definida e que pode mudar sua posição. Já Rubens Bueno, em 2002, conquistou a classe média curitibana e agora buscará ampliar seu eleitorado nas camadas mais populares. A segunda diz respeito às pesquisas. Qualquer projeção de voto deve levar em consideração não apenas o potencial de crescimento, mas principalmente o índice de rejeição. Na prática, uma coisa está condicionada a outra.
Quanto à entrevista do presidente do Ibope um ponto parece destoar da realidade brasileira. Segundo ele, os eleitores irão votar dissociados das questões nacionais, com os olhos voltados apenas aos problemas localizados em cada município. Certamente que os candidatos do PT ou aqueles apoiados pela legenda vão tentar esta estratégia, mas a performance do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá influenciar diretamente nos resultados das eleições. Temas como desemprego, educação, saúde e segurança vão a ser tônica dos palanques. Aliás, esta disputa será tão plebiscitária que até mesmo o desempenho do tucano José Serra, em São Paulo, poderá repercutir por todo o país nas campanhas dos candidatos peessedebistas. Para o bem ou para o mal.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


