ESPAÇO ABERTO - A sociedade que tolera
Vivemos o maravilhoso tempo da tolerância. O tempo no qual tudo e todos devem ser respeitados, no qual a valorização das minorias, sejam quais forem, devem ser pleiteadas pelo exercício da alteridade, conduzindo sempre para a tolerância. Assim, tem-se içadas bandeiras: homossexualismo, laicidade religiosa, diversidades de novas ideias. Isso, aparentemente, seria bom, mas seria plenamente bom?
Esta mesma sociedade que apregoa a tolerância, vive o maior tempo de atrocidades de sua história, superior até mesmo aos tempos da inquisição, escravidão, apartheid ou ditadura militar. Por que maior? Nas épocas mencionadas, por exemplo, as pessoas perseguidas o sabiam e os grupos opressores explicitavam sua intolerância. Muitas foram as atrocidades impostas aos que criam, pensavam e tentavam agir diferente. No entanto, este grupos conheciam os riscos e sabiam de onde viria a intolerância. Seria o que podemos chamar de guerra declarada.
Diante desses fenômenos, estudiosos, filósofos e pensadores, horrorizados, passaram a defender o estado supremo da tolerância, no qual todos precisam ser respeitados, aparentemente sem se medir as consequências futuras de tanta tolerância. Nasceu, assim, a maravilhosa sociedade da tolerância, que tolera os grupos minoritários de religiosos, de culturas que sacrificam mulheres, de políticos corruptos, de traficantes que viciam nossos jovens, pois todos, afinal, devem ser tolerados, respeitados, não é mesmo? Se na China sacrificam ou rejeitam as menininhas é porque o contexto histórico do país permite, visto sua superpopulação; se o traficante assim o faz é porque não teve condições sociais para se desenvolver de outra forma; se nossos políticos são como são é porque não sabemos eleger nossos representantes. Vamos respeitar a cultura, a forma de agir e pensar de cada um, pois temos que nos colocar no lugar do outro, não é isso?
De tanto tolerar tudo e todos, ao que me parece, essa sociedade perdeu seus valores. A família não importa, Deus não é referência, maniqueísmo é algo restrito aos contos de fada, pois pecado e valores morais ganharam status de relatividade nesta sociedade que tolera e está se acostumando a tolerar assassinato de inocentes, filhos batendo em pais, traficantes viciando crianças e aliciando-os para a criminalidade, políticos que roubam, casamentos que não se sustentam, famílias falidas, pois somos sugestionados a tolerar toda e qualquer manifestação de pensamento, ação ou credo.
Na sociedade que tolera não devem haver inimigos declarados, mas a falência de valores, a falta de referência tem corrompido os laços de amizade e de tanto tolerar deturpamos o legado de uma sociedade realmente pautada no senso de justiça, nos valores que a humanidade tanto busca construir, porque estamos nos acostumando a aceitar tudo, até mesmo o que talvez nem seja tão bom. Afinal, pode não ser bom para nós, mas é sempre bom para alguém, nem que este alguém seja alguém que nem pense muito na gente.
WÉRICA DIAS MICHELETTI
é pedagoga e professora de
Língua Portuguesa em Londrina





