Segundo Slavoj Zizek, filósofo esloveno, a mais recente novidade no mundo dos excluídos é a que se relaciona diretamente com a guerra e a distribuição de alimentos que acontece paralela a ela. Ele chama isso de biopolítica humanitária. É o que todos vimos no Afeganistão pela TV, com os aviões de guerra americanos sobrevoando aquele país. Nunca se sabia ao certo se eles estavam prestes a lançar bombas ou pacotes de comida. A ajuda humanitária ao lado das bombas repetiu-se na guerra contra o Iraque.
É neste contexto que renasce um ser humano que o professor esloveno chama de homo sacer aquele indivíduo, que, segundo o direito romano da antiguidade, podia ser morto com impunidade, e cuja morte era destituída de valor sacrificial, pela mesma razão. Ele diz que talvez seja essa a expressão mais apropriada para explicar a nova categoria de emergentes dos excluídos, que não são apenas os terroristas, mas também os receptores de ajuda humanitária.
Este homem descartável de hoje é o objeto privilegiado da biopolítica humanitária. A vida não é só banalizada, mas é também manipulada para atender interesses políticos. Se não interessar mais, ela pode ser descartada sem maiores problemas. Até já se inventou uma expressão asséptica para isso: os efeitos colaterais da guerra. Não deixa de dar um mal-estar pensar num assunto como este. No meio de tudo tem ainda a surrealista questão do fogo amigo e a conversa fiada da eficiência milimétrica das bombas inteligentes guiadas por satélites. De que adianta bombas inteligentes se elas são movidas por interesses mesquinhos e estúpidos.
Este estranho patamar de evolução a que chegou o homem, nos leva muitas vezes no desespero, a recuperar mitos antigos para tentar explicar o que está acontecendo. Um desses, acaba sendo aquela velha história da mitologia grega que narra que Pandora, a primeira mulher a existir na Terra, tinha recebido uma caixa, presente dos deuses, com a recomendação de que nunca a abrisse. Não resistindo à curiosidade, levantou a tampa da caixa, e na sequência, todos os males do mundo, seus pecados, doenças e vícios escaparam. Diz a história, que Pandora assustada, percebendo a irresponsabilidade que cometera, fechou rapidamente a tampa, porém somente a esperança, o último consolo dos homens, havia permanecido no seu interior.
O escritor David Landes, ao concluir seu magistral livro, ''Prometeu Desacorrentado'', lembra essa história, e destaca que há uma sabedoria nas antigas histórias, que ainda não foram invalidadas pela experiência dos dois últimos séculos e que mereceriam ser redescobertas. A Revolução Industrial e o subsequente casamento da Ciência com a Tecnologia constituíram o clímax de milênios de avanço intelectual. Foram também uma enorme força a favor do bem e do mal, porém houve momentos em que o mal superou amplamente o bem.
O escritor ressalta que mesmo assim a marcha do conhecimento e da técnica deverá prosseguir e, com ela, a luta social e moral. Ninguém pode ter certeza de que a humanidade sobreviverá a essa trajetória dolorosa, especialmente numa era em que o conhecimento humano da natureza suplantou em muito o conhecimento que o homem tem de si mesmo. Todavia, afirma Landes, que se pode ter certeza de que ele rumará por essa estrada e não a abandonará, pois, embora tenha seus medos, ele tem também sua eterna esperança. Este, convém lembrar, o derradeiro item da caixa de Pandora.
TARCISIO VANDERLINDE é professor da Unioeste no câmpus de Marechal Cândido Rondon

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