ESPAÇO ABERTO - A religião nas eleições
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de outubro de 2004
Silvana Aparecida Mariano 
É sempre oportuno analisarmos as implicações dos discursos eleitorais para a democracia. Nesta eleição, como em outras passadas, a questão da religiosidade ocupa um espaço de destaque. Não creio que esta deva ser uma questão relevante no debate eleitoral, mas os candidatos e boa parte do eleitorado pensam diferente.
Durante o primeiro turno das eleições de Londrina, os candidatos fizeram coro ao afirmar que ''é importante ser cristão''. Em que pese a representatividade dos cristãos entre o eleitorado, esta é uma afirmação preocupante do ponto de vista democrático. Pelo mundo afora, cada vez mais reforça-se o consenso político de que a vivência democrática exige a convivência e o reconhecimento das diferenças. Isto inclui também as diferenças de credo e religiosidade, tais como o judaísmo, o hinduísmo, o budismo, o islamismo, as religiões afrobrasileiras e tantas outras, e ainda, é claro, a ausência de credo. Devemos não apenas tolerá-las, mas reconhecê-las.
Se afirmamos que todos devem ser cristãos, estamos, no subtexto, avalizando as atrocidades históricas cometidas contra não-cristãos, inclusas as Cruzadas, a Santa Inquisição e a catequização nos processos de colonização. Estamos, juntamente com este valor, afirmando que todos os não-cristãos podem ser discriminados, perseguidos, executados e eliminados. Vale lembrar que este mesmo raciocínio, mudando os pólos da relação, resultou também na perseguição de cristãos. Não nos resta qualquer dúvida de que o pluralismo é fundamental para a democracia. A unidade, a universalidade de um valor, qualquer que seja, ao contrário, é a própria antidemocracia, a exclusão, o despotismo.
Que politização há no voto definido com base em uma orientação religiosa, em vez de projetos coletivos para resolução dos problemas sociais da cidade? Adorno disse uma vez que a solução para a estetização da política é a politização da estética. Será possível uma paráfrase para a mistura de religião e política? Max Weber, como muitos outros importantes pensadores, acreditava que a modernidade caracteriza-se pela secularização da vida social, o que inclui a separação entre religião e política. Olhando para o 1º turno das eleições em Londrina, tem-se a impressão de que estivemos aquém desta modernidade.
Pelo bem da democracia, espero que neste 2º turno o debate eleitoral seja mais politizado; que os candidatos não disputem o título de melhor cristão, mas sim de melhor opção política. Reconhecer a importância e o valor do cristianismo não é o mesmo que lhe atribuir supremacia sobre as demais crenças, ainda que tenha supremacia eleitoral. Vamos eleger um prefeito e não um clérigo.
SILVANA APARECIDA MARIANO é socióloga em Londrina e doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp/Campinas


