Dona Oceya de Souza, leio em um sítio qualquer da rede, é professora, formada pela Universidade Católica do Salvador. Está desempregada e é só no mundo. Não tem como pagar aluguel e, então, mora no aeroporto internacional Deputado Luiz Eduardo Magalhães, vivendo de comida dada por amigos de magistério...

"Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima e não uma solução". Então não rimo, sigo chamando João...

A ironia toda é que o aeroporto simboliza poder aquisitivo, significando verdadeiro repositório tecnológico (estão sempre sendo reformados, construídos, reinventados). O aeroporto onde dona Oceya está vivendo leva o nome de um falecido político baiano.

Por este viés podemos dizer que a professora (símbolo do trabalhador desvalorizado) encontrou no político (símbolo de desesperança, notadamente com a crescente onda fascista que atropelou a bondade) o abrigo que a própria atuação parlamentar não colou na efetivação de leis que valorizassem a educação.

Somos nossa própria antítese. O desvalor financeiro com que se trata quem educa nossos filhos não revela nada além de nossa fraqueza de caráter – educação não é prioridade no Brasil neoliberal.

Não se ponham a ladrar os neoliberais que não estou criticando a situação pontual (creio) do desemprego que alcança a professora, suposto que ficar sem emprego nesta quadra de nossa existência não enseja nenhuma novidade. Aqui a ironia é a novidade...

Evoluímos tecnologicamente a ponto de vencer a limitação física do mais pesado que o ar se sustentar no próprio ar, redesenhando a incidência da gravidade.

Assim, viabilizamos a custo proibitivo (para a imensa maioria da população) o uso de aviões enquanto eficiente e seguro meio de transporte. Passou da hora, todavia, de se democratizar (concretamente) o uso desse meio de transporte...

E a professora Oceya com isso?

A professora deveria ser imediatamente procurada pela gente de vergonha na cara de Salvador – e os há em profusão na capital de todos os baianos. Empresários, cineastas, roteiristas, cozinheiros, pais de santo, jogador de bola – todo aquele que compõe uma cadeia econômica produtiva –, fariam um bem danado à própria biografia se ofertassem uma ocupação lícita, digna e conforme à professora desempregada.

Melhor fariam os herdeiros do político precocemente falecido e que empresta o seu nome ao aeroporto, se procurassem dona Oceya e lhes ofertassem uma ocupação (lícita, digna e conforme)...

Imaginemos o seguinte roteiro: os familiares do finado Luiz Eduardo Magalhães contratariam dona Oceya para escrever suas memórias dos dias de aeroporto. A um só tempo lhe dariam ocupação lícita e elevariam o nome do político baiano que apelida o aeroporto...

Isso resolve o que? Talvez a fome e um abrigo para dona Oceya, ainda que isso seja o mínimo do mínimo...

Ocorre que a situação da professora extrapola esse mínimo, constituindo-se em vergonha coletiva a que nossa insensibilidade crônica nos levou.

Esse é um caminho demarcado pela falta de empatia. A singularização de nossa época é mais que a negação do modelo existencialista, suposto que este seria plural e fala em desfavor do homem insensível que o século XXI pariu...

Há um homem moderno à solta e este homem ama odiar mulheres (tanto que há uma lei específica que as protege de agressões), além de não comungar com as minorias...

Esse homem moderno não teria repartido o pão naqueles dias de fome e, acaso sua santa Mãe lhe pedisse transformar água em vinho, sua primeira preocupação seria o custo de venda desse vinho...

Esse homem moderno está mais preocupado em poder ir à missa em época pandêmica do que em comungar com as diferenças, aceitando-as em lugar de julgá-las – se diz cristão e não conhece o cara que emprestou o nome a religião...

Esse homem moderno tem se valido de notícias mentirosas, de dados manipulados, de julgamentos políticos, de violência contra a mulher, para impor o seu pensamento, fixando a raiz preconceituosa de sua visão doentia da vida...

Esse homem moderno ajoelha todo dia para a santa tecnologia ao tempo em que não se condói com a dificuldade do próximo, não se colocando, jamais e sob qualquer pretexto, no lugar do outro.

Empatia, para o homem moderno, não é senão um nome feio a não ser considerado caso lhe venha outra filha...

Aeroportos seguem proliferando no mundo de homens modernos, professores são cada vez mais raros e sua ausência represa o amanhã, dando sustento às correntes que aprisionam na ignorância.

A terra não é plana. Creiam.

Saudade Pai – você nunca foi moderno o suficiente...

João dos Santos Gomes Filho, advogado avelhantado

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