ESPAÇO ABERTO - A primeira geração
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de dezembro de 2004
Luiz Carlos Hauly 
A primeira geração de latino-americanos que vivem sob a democracia, regime que predomina em todo o continente, enfrenta paradoxo de poder escolher seus governantes e retirá-los, se for o caso, sem violar a ordem constitucional mas ainda não experimentou melhora em suas condições de vida. O resultado dessa dicotomia está contido no Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgado em abril: a maioria dos latino-americanos 53% trocaria a democracia por um regime que lhes proporcionasse melhores condições de vida.
No Brasil, em 1992, usamos o instrumento do impeachment para retirar do poder Fernando Collor de Melo pelas denúncias de corrupção em seu governo, mesmo tendo sido o primeiro eleito após o regime militar. Neste caso participei ativamente do processo e pude verificar a solidez das instituições democráticas brasileiras, construídas após o período de exceção.
A democracia se consolidou em todo o continente nos últimos 25 anos. Cuba é a única exceção à regra. Nos últimos 14 anos, presidentes foram depostos ou renunciaram. As instituições democráticas, contudo, prevaleceram.
Políticos e intelectuais de diversos países da América Latina se reuniram em Brasília para analisar os desafios à democracia no continente. O encontro, promovido pelo PNUD com o apoio da União Européia, ocorre no momento em que a Câmara dos Deputados começa a analisar a proposta de reforma política.
Pois a reforma política, que prevê o fortalecimento dos partidos e o vínculo do eleitor com os eleitos e vice-versa, é justamente um dos caminhos apontados pelo PNUD para corrigir os rumos do processo de democratização continental. Ao lado da necessária correção das desigualdades econômicas e sociais, que somente se agravaram após a consolidação da democracia no continente, o PNUD aponta a necessidade de uma democracia cidadã o regime de respeito aos direitos individuais para complementar a democracia eleitoral.
A primeira geração de latino-americanos não pode continuar abandonada. É preciso um esforço combinado de governos e instituições do continente para aprimorar esse regime, que tanto esforço e sofrimento exigiu para ser conquistado.
LUIZ CARLOS HAULY é ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa da Câmara dos Deputados


