De um lado, o interesse de uma rede mundial de supermercados, a norte-americana Wal-Mart. Do outro, a construção do Teatro Municipal de Londrina. O comércio contra a cultura, numa discussão temperada por interesses. Nessa discussão devem prevalecer os interesses coletivos, nem econômicos e nem de grupos. Devem prevalecer os interesses sociais e não especulações.
O decreto de utilidade pública do terreno do antigo Colégio Londrinense e do ginásio do Colossinho, assinado pelo prefeito Nedson Micheleti em agosto do ano passado, garante os interesses coletivos para a construção do Teatro Municipal. Engana-se quem pensa que cultura não gera empregos. Ao mesmo tempo em que gera trabalho, gera - também - cidadania.
Aliás, cidadania - mais que um conceito - deve ser encarada como uma característica vital de uma população. Neste contexto deve ser levado em conta a perspectiva capitalista dos interesses norte-americanos.
Segundo a revista ''Veja'', de 14 de janeiro deste ano, a Wal-Mart faturou, em 2003, US$ 245 bilhões. Segundo a revista, a rede é ''uma máquina competitiva movida a ganhos de produtividade que já levou à falência duas dezenas de concorrentes de grande porte nos Estados Unidos''. Se na terra do tio Sam a Wal-Mart quebra a concorrência, imagina o que não fará em Londrina.
Segundo editorial do jornal ''O Estado de S.Paulo'', de 4 de fevereiro último, ''os ganhos dos consumidores nas unidades desse império... não compensam os prejuízos... Os danos incluem desde a erradicação de uma infinidade de pequenas lojas da rua principal, os armazéns e empórios que desempenham funções inestimáveis como fonte de emprego e foco da vida comunitária, até a degradação salarial na economia como um todo''.
O modelo capitalista vigente no globo terrestre mostra as suas contradições. Ao mesmo tempo em que a Wal-Mart pratica preços 14% mais baixos que os da concorrência, os salários pagos pela rede não chegam a 60% dos praticados pelos concorrentes. Numa mesma moeda estão a riqueza e a miséria. Riqueza de uma minoria, miséria da maioria.
Mesmo assim, a cidade está aberta para receber os investimentos da rede e a administração municipal apresentou cinco áreas na região central. A decisão agora é da empresa que não pode se pautar por especulações imobiliárias para se instalar num terreno de utilidade pública, como é o caso do Colossinho.
É urgente pensarmos e criarmos um modelo de desenvolvimento econômico que seja baseado no interesse coletivo e social, calcado no ser humano. Não é à toa que os pais do neoliberalismo - os países desenvolvidos - pensam numa proposta de globalização solidária. Como se fosse possível conciliar lucros desenfreados com humanismo.
NELSON CARDOSO é vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em Londrina

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