ESPAÇO ABERTO - A paixão predeterminada e o livre-arbítrio
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de março de 2004
Aguinaldo Pavão 
O filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, provocou a polêmica sobre seu caráter anti-semita. Fui assistir ao filme e francamente não vejo como seja possível adeptos do cristianismo e do judaísmo alimentarem tal discussão. Se quisermos discutir a suposta culpa moral dos judeus, precisamos estar dispostos a discutir o sentido de culpa moral. Sustento simplesmente que não há, em toda a história representada no filme, nenhum culpado. Logo, não há como acusar a película de anti-semitismo. Quero deixar claro que isso que estou afirmando independe das intenções e convicções do diretor do filme.
Para o meu ponto, o caso de Pedro é exemplar. Ele nega Cristo três vezes. Ele poderia ser moralmente censurado por pusilanimidade. Mas, no fundo, ele não merece qualquer repreensão. Jesus, de alto de sua divindade (segundo crêem os cristãos), predisse a ação de Pedro: ''Pedro, eu lhe digo que hoje, antes que o galo cante, três vezes você negará que me conhece''. Ora, não cabe censura moral quando a ação é inevitável. Certamente as ações são inevitáveis se admitirmos a presciência e onipotência divinas. Segundo esse ponto de vista, Deus tem conhecimento sobre todas as coisas futuras. Sendo Deus onipotente, todo o futuro está determinado de antemão. Assim, para Deus, a ordem das coisas é certa, como é certa a ordem das causas. Nada pode vir a acontecer se Deus não tivesse antes decidido que isso viria a acontecer. Logo, nada está em nosso poder. Nossa liberdade é uma ilusão e a responsabilidade moral, desse modo, é destituída de sentido.
Agostinho, uma mente filosófica genial, tentou compatibilizar a presciência divina com o livre-arbítrio. Ele argumentou que uma coisa é prever, outra forçar. Quer dizer, Deus sabe o que farei, mas sou eu, por minha livre vontade, que faço o que faço, sem ser coagido por Deus. Mas com essa argumentação, um defensor da incompatibilidade entre presciência divina e liberdade, não se dará por satisfeito. Ele provavelmente objetará que se Deus não quisesse que as pessoas pecassem, elas não pecariam, ou seja, se Deus quisesse que Pedro confessasse ser discípulo de Jesus, dado que Deus é onipotente, Pedro assim agiria. Judas não trairia Jesus se Deus não quisesse. Tampouco, os judeus entregariam Jesus se Deus não quisesse. Onde há culpados nessa história?
Um outro ponto a considerar é a alegação de que o filme visa a retratar o tamanho da dor suportada por Jesus para redimir nossos pecados. Acontece que isso tem uma validade totalmente restrita aos crentes. Do ponto de vista da simples razão, não vejo como se possa dar crédito a essa posição. Mais uma vez, lembro Agostinho. No Livre Arbítrio, com o objetivo de responder à questão: ''Se foram Adão e Eva que pecaram, que culpa temos nós?'', ele afirma: ''As más ações que cometemos por ignorância e as boas que não conseguimos praticar, apesar da boa vontade, denominam-se ''pecados'', visto tirarem sua origem daquele primeiro pecado cometido por livre vontade. Esse, com efeito, como antecedente, mereceu os outros pecados como consequentes''.
Ora, se a ignorância e a fraqueza de minha vontade, causas das minhas faltas, são efeitos de atos cometidos por outrem, então também as minhas faltas são, no fundo, resultado de decisões alheias. Não tem cabimento a tese de que apenas Adão e Eva poderiam ter agido diferentemente. Eu não sou moralmente responsável pela escolha errada no Éden; eu não estava lá. A responsabilidade moral depende do exercício da liberdade do arbítrio de cada um, não do fato de sermos ''filhos'' de pais pecadores.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina


