ESPAÇO ABERTO - A ONU e o anti-semitismo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de agosto de 2004
Kofi Annan 
Ao longo da História o anti-semitismo tem sido uma manifestação única de ódio, intolerância e perseguição. O anti-semitismo floresceu inclusive em comunidades nas quais nunca houve judeus e tem sido precursor das discriminações contra minorias. O crescimento do anti-semitismo em qualquer lugar é uma ameaça às pessoas de todo o mundo. Portanto, combatendo o anti-semitismo estamos lutando pelo futuro da humanidade.
O Shoá, ou Holocausto, foi o epítome deste mal. Na década de 1930, a Alemanha era uma sociedade moderna na vanguarda do avanço técnico e do progresso cultural. Mesmo assim, o regime nazista que chegou ao poder decidiu exterminar os judeus da face da Terra. Nós sabemos - e no entanto ainda não compreendemos - que seis milhões de homens, mulheres e crianças inocentes morreram, simplesmente pelo fato de serem judeus. Esse foi um crime contra a humanidade que desafia nossa capacidade de entendimento.
O nome ''Nações Unidas'' foi cunhado para descrever a aliança que lutou para destruir aquele regime bárbaro. Nossa Organização surgiu no momento em que o mundo tomava conhecimento do horror dos campos de concentração e de extermínio. Seria, portanto, razoável dizer que as Nações Unidas emergiram das cinzas do Holocausto. E uma agenda de diretos humanos que fracassa na luta contra o anti-semitismo nega sua própria história.
É difícil acreditar que, 60 anos após a tragédia do Holocausto, o anti-semitismo esteja novamente mostrando sua cara. No entanto, está claro que estamos testemunhando um alarmante ressurgimento deste fenômeno através de novas formas e manifestações. Desta vez, o mundo não pode, nem deve, manter-se calado.
Devemos a nós mesmos, assim como aos nossos irmãos judeus, o dever de nos mantermos firmes contra este tipo particular de ódio que o anti-semitismo representa. Precisamos reconhecer que o histórico das Nações Unidas em relação ao Holocausto tem, algumas vezes, se mantido abaixo de nossos ideais.
Enquanto buscamos justiça para os Palestinos - e devemos fazê-lo -, ao mesmo tempo desaprovamos firmemente qualquer um que tente usar esta causa para incitar o ódio contra os judeus, Israel ou qualquer outro grupo de pessoas.
A estrutura de direitos humanos das Nações Unidas tem sido mobilizada na batalha contra o anti-semitismo e isso deve continuar. Os Estados membros deveriam seguir a excelente diretriz da Declaração de Berlim, recentemente adotada pela Organização pela Segurança e Cooperação na Europa (Osce). Aqueles 55 Estados condenaram, sem ressalvas, todas as manifestações de anti-semitismo. Também declararam, de maneira explícita, que o encaminhamento de questões sobre a política internacional, incluindo aquelas que tratem de Israel ou de qualquer outro lugar do Oriente Médio, nunca justifica o anti-semitismo.
KOFI ANNAN é secretário-geral da Organização das Nações Unidas


