O atual crescimento da classe média no Brasil é atribuído a vários fatores, como o aumento de emprego com carteira assinada e o bom desempenho da economia diante das crises externas, segundo a Fundação Getúlio Vargas, ou pelo aumento real do salário mínimo e os programas sociais desenvolvidos pelo governo, segundo o Instituto da Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A estabilidade econômica observada no País nos últimos anos também tem contribuído para esse aumento.
No entanto, a ascensão de mais de 31 milhões de pessoas à classe C não significa que o Brasil tenha posto fim a problemas históricos, como a grande presença da informalidade no mercado de trabalho, por falta de capacitação profissional. Também temos a questão do poder de compra da ''nova classe média'' baseada no crédito farto e que pode não se sustentar devido aos altos juros. Além disso, a crise econômica mundial iniciada em 2008 não dá sinais de ir embora - o que talvez represente o risco mais sério para esses novos consumidores. O que fazer, então, para assegurar a essa camada da população um poder aquisitivo estável e crescente, nos próximos tempos?
Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a resposta está em fazer as reformas trabalhista e tributária e ampliar o nível da educação. Junto a isso, o governo estuda a criação de mecanismos para evitar que esse renovado segmento social retorne à sua antiga situação. Precisa-se, com urgência, do desenvolvimento dessas ''travas''.
Entretanto, nesse universo que agora soma 94 milhões de pessoas, diversas questões começam a se colocar e suas respostas não estão próximas. Há uma série de dificuldades que comprometerão o país em alguns anos. Não se trata de criticar o crescimento da classe média, mas apontar elementos que devem ser tratados pelo governo para que não nos coloquemos em situações mais severas.
Em primeiro lugar, destacamos o impacto ambiental causado por esse avanço da renda no país. A classe média quer e vai comprar cada vez mais. A relativa estabilidade de preços, se comparado o cenário atual a um período de 20 anos, impulsiona a aquisição de bens e serviços, os quais demandam maior extração de matéria-prima. No entanto, a ''consciência ambiental'' de nossa população parece caminhar apenas entre aqueles que sobrevivem da reciclagem.
Também devemos pensar: cada vez mais a classe média poderá consumir produtos eletroeletrônicos, que dependem do uso de energia elétrica para seu funcionamento. Se considerarmos os indivíduos que entraram para esse segmento, são justas suas aspirações por uma TV nova, uma geladeira, computadores e outros produtos até então vedados ao seu consumo. Estará o governo investindo de forma eficaz para que não tenhamos que racionar energia elétrica outra vez?
Em último lugar, mas sem encerrar a discussão, colocamos a questão da educação. Uma das ''travas'' mais eficientes para evitar o retorno da nova classe média a seu estado anterior é a garantia de uma educação de qualidade a seus filhos, para que possam reproduzir ou mesmo superar suas atuais condições de existência. No entanto, o ensino básico e superior vindos das escolas públicas ou está sucateado ou está inchado, não comportando mais tantos alunos. Assim, proliferam as diversas escolas e faculdades particulares, as quais têm sido pouco regulamentadas e têm se preocupado, via de regra, em abocanhar os investimentos dessa parcela da sociedade na educação, sem lhes garantir o devido retorno.
Essas não são, afinal, questões para as quais pretendemos oferecer respostas, mas que nos servem para apontar a ausência de políticas públicas que garantam a inserção e qualidade de vida a esses cidadãos, sem que os prejuízos sejam posteriormente divididos entre todos.

LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História e BEATRIZ MENEZES AMARO é estudante do Ensino Médio em Londrina

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