Certo dia eu entrei numa sala de sétima série e deparei com um dos alunos, o ''Joãozinho'' da turma, com lágrimas nos olhos. Não pensei duas vezes e fui à sua carteira para ver o que havia acontecido. Para minha surpresa, sem dar resposta, (ele falava o tempo todo) me mostrou uma prova com nota zero. Eu brinquei, passei a mão no seu cabelo e mandei estudar mais que não aconteceria novamente. Cheguei até a contar uma história de um zero que um professor me deu e, além de tudo, escreveu com letras de forma e em vermelho: ''Zero é a nota dos incompententes''. Não só ele, pois eu não estava falando em particular, mas, vários alunos prestavam atenção naquilo que eu dizia.
Surpresos, comentavam o que eu acabava de relatar. Claro que ninguém concordou. Eu continuei. Enquanto o professor explicava sobre os ''icebergs'' e como eles ''navegavam'' com uma pequena parte de sua massa de milhares de toneladas aparecendo por sobre as águas. Eu não consegui entender, e ingenuamente fiz a pergunta: o que é um ''iceberg''? O professor me respondeu que era uma imensa pedra de gelo. Eu ainda não havia compreendido direito e complementei com outra pergunta: como uma ''coisa'' tão pesada poderia flutuar? Por que não afundava? Até fiz um comentário: ''Uma pedrinha, que é uma pedrinha afunda, imagina uma pedrona desse tamanho''.
Creio que o professor não entendeu que eu estava falando sinceramente e me respondeu com uma outra pergunta: ''Você nunca viu uma pedra de gelo?'' E eu, honestamente, respondi que não, pois na minha casa não havia geladeira, nem na dos meus amigos. Já havia chupado sorvete, mas nunca tinha colocado dentro da água. Não só fui para fora da sala, como ganhei de presente um sermão de umas duas horas da diretora, que também não era muito compreensiva com minhas constantes transgressões.
A essa altura a sala toda estava reunida à minha volta às gargalhadas. Eu aproveitei a oportunidade e relatei as minhas transgressões, para que eles fizessem uma comparação com as da atualidade.
Eu conversava durante as aulas daqueles professores que pegavam o livro e iam ditando um monte de coisas e depois teciam um comentário que era praticamente a mesma coisa que nós acabávamos de ter copiado. Eu percebia quando alguns dos educadores não estavam tão preparados, o quanto deveria estar, e fazia perguntas desconcertantes, especialmente durante as suas maravilhosas explanações. Eu também tinha o péssimo hábito de fazer a leitura antecipada dos livros didáticos, resolver antecipadamente os exercícios de matemática, fazer as experiências do livro de ciências, escrever poesias, compor músicas e mandar flores para a minha querida professora de literatura.
Quando voltei os olhos para a turma, estavam estatelados, todos querendo saber sobre o que me fazia ser visto como um transgressor. Respondi. Eu cometia a maior de todas as heresias: eu fazia perguntas, questionava o valor intrínseco do conteúdo abordado, num tempo em que silêncio e obediência cega, eram sinônimos de sabedoria na sala de aula, na rua, na imprensa e, até mesmo, em casa.
Eu sempre reflito sobre essa passagem de minha vida escolar, especialmente sobre a frase que recebi de graça. O querido mestre pensou em avaliar-me ou humilhar-me? Em ensinar-me ou mostrar-me que ele é quem mandava? Em dar-me saberes ou um ditado preconceituoso e pré-fabricado? O zero que tirei na prova não afetou a minha vida, mas a frase que ele me presenteou fez-me educador, também com muitos defeitos, mas com uma lição: incompetente é o professor que se nega a ensinar os que estão sedentos do saber; é o que pela força e coação da nota, desestimula, exclui, mata mentes brilhantes; é o que se diz mestre e sequer maneja com razoável competência, os ditames que lhe são atribuídos chamados de conteúdos.
DAVRISON DE ABREU ANSELMO é professor em Ibaiti

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