ESPAÇO ABERTO -

ESPAÇO ABERTO - A normalidade brasiliense

O país real não suporta mais quinze meses de tensionamento em que o protagonista maior da instabilidade demonstra, ele mesmo, uma conduta esquizofrênica e mentirosa

MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS

 

ESPAÇO ABERTO - A normalidade brasiliense
Miguel SCHINCARIOL / AFP
 


É consenso que a normalidade voltou à Esplanada dos Ministérios. Trocado em miúdos, retornou o submundo dos acordos espúrios, subtraídos ao olhar do cidadão comum; este, ou sai cedo para o trampo, ou perambula pela cidade buscando, o seu cada vez mais distante emprego. Na penumbra do deboche, sob o escaldante sol brasiliense, se afagam golpistas e se renova a fé numa pseudo harmonia institucional.



Nada como um dia após o outro, dizem. Em carros blindados vistosos ou em mensagens criptografadas, os grandes senhores de uma política apequenada, acordam entre si, em postura de compadrio, que o tabuleiro não deve ser derrubado e o jogo afinal, continua. O desdém pelos que escreverão a nossa história é arrepiante. Melhor uma democracia mitigada, cambaleante, do que soluções óbvias que envolvam coragem e firmeza à luz da Carta Magna! O Brasil não é para amadores! Ou para principiantes, fazendo jus ao seu autor, Tom Jobim.


Na terça feira, dia 7 de setembro, multidões saíram às ruas para pedir o fechamento do Supremo Tribunal e defenderem o seu presidente “impossibilitado de trabalhar”. Envoltos nos símbolos da nação, flertavam com o paradoxal: exigiam liberdade de expressão evocando intervenção militar, e não se conformando com a prisão de gente, que tem contumazmente enxovalhado a democracia e as suas Instituições, com palavreado chulo e ameaças constantes!


Nem uma palavra ou protesto, sobre as várias mazelas que ameaçam a verdadeira independência deste país, incluindo os altos preços com a inflação real de mais de 30%, gerando miséria e fome nos filhos que não fogem à luta.


Em que pese o livre direito das manifestações, no mesmo sistema político que agora abominam, foi um dia ignóbil, que a nossa história não terá facilidade em catalogar! Porém, a peça mais insólita na galeria do infortúnio do museu 2021, é uma cena que com certeza Pedro Américo se recusaria a pintar! Um presidente eleito democraticamente, ferindo de morte a própria democracia, ameaçando os outros poderes e instigando seus fiéis seguidores a odiarem ministros, mostrando-se ele mesmo determinado a desobedecer a ordens judiciais!


Patético, diriam os amantes do bom senso! Ocorre, porém, que essa forma sensata, caraterizada pela razoabilidade e prudência, passou bem ao largo dos últimos acontecimentos.


Os acertos intramuros na capital federal, estão longe de obedecer aos interesses gerais da nação. São espúrios e submetidos apenas à preservação da espécie. Não há acordo que não contemple o bem-estar geral dos envolvidos! Por enquanto, sobressai um presidente acuado, vislumbrando no horizonte uma possível prisão, que opta pela manutenção do cargo; um Centrão, que não parece disposto a sacrificar as benesses do poder, sentando-se sobre inúmeros pedidos de impeachment; do outro lado da praça, um STF, com quem o país terá uma dívida histórica, e que tendo sido firme na tempestade golpista, reconhece que um acordo mesmo que frágil, é o melhor para o momento. Este cozinhado não teria sucesso, sem a nítida influência do mercado financeiro, que deseja tudo menos instabilidade. E assim, se atravessou o rio rubicão e se evaporaram as consequências previsíveis desse ato!


O país real não suporta mais quinze meses de tensionamento em que o protagonista maior da instabilidade demonstra, ele mesmo, uma conduta esquizofrênica e mentirosa.


Uma casa construída sobre a areia movediça da falta de confiança, provocada ao longo de quase três anos por um transtorno de mitomania, não resiste! Esse homem provocou no país uma onda inexplicável de absorção da realidade fictícia, com a consequente negação dos problemas reais e a aparente dificuldade da aceitação do óbvio, por mais comprovado que seja! Devemos a ele, num percentual elevado, a manutenção da mediocridade política no Brasil e a escassez de alternativas viáveis nas próximas eleições.


Para quem não aprecia o Lula, se impunha no mínimo a honestidade de reconhecer em Bolsonaro o seu maior cabo eleitoral! As conversas em Brasília nos últimos dias pensaram em tudo, menos no Brasil!


Manuel Joaquim R. dos Santos é padre na Arquidiocese de Londrina


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